sábado, 30 de junho de 2018

O homem de papel

Que diferença isso faz?
Ver a pessoa somente em redes sociais?
Melhor, só uma imagem inerte, mais um número,
seguidores de alguém também sem rumo.
Eu nunca vi uma pessoa tão inteligente ser tão burra.
Existem dois de você.
Um é o homem extremamente carinhoso, compreensivo, solícito, cuidadoso, consciente.
Aquele rapaz doce que cuidou da mãe feito filha quando ela precisou e amadureceu antes da hora
sem querer perder o seu grande amor, segurando a sua mão quando uma parte dele ela levou,
e uma parte dela nele ficou.
Que foi crescendo cheio de sonhos, que busca oportunidades onde parece não haver possibilidades.
Aquele que ainda bate ponto diante das exigências do pai
e se esforça para demonstrar responsabilidade no mundo corroído dos homens.
E outro, um completo imbecil. O machista, o que finge que esquece,
o que almeja ser desejado, o que pensa que aparência abre portas e conquista mundos.
O irresponsável, egoísta e medroso, o covarde que não consegue se olhar no espelho,
que caminha na superfície, sustentando uma força que não tem, sem conseguir enfrentar a vida
de peito aberto, com franqueza, de cara, sóbrio de si e do outro.
Um jovem antigo preso nos escombros da memória.
Você é um universo inteiro, não dá para ser repartido.
E nessa encruzilhada você precisa escolher o lobo daquela antiga lenda indígena que
deseja alimentar. Quem é você. Como será.
Não é seu signo ou seu orixá que vai determinar quem você é.
A cada momento e a cada dia você escolhe a vida que quer levar,
o ser humano e o homem que quer ser.
Leão... Xangô anda do teu lado, não estereotipado, força vital que te dá alimento para
seguir e sobreviver. A propósito, quem se determina é você. Quem diz para o que veio,
quem sabe do teu nome, do teu passo, do laço que te prende, do medo, da vontade,
da raiva e da busca constante para não ser aquilo que não quer, mas
acaba sendo e assinando o contrato de otário.
Aonde não há espaço para a amizade, o olhar carinhoso,
o cuidado desobrigado, a liberdade incentivadora.
Onde não há lugar para um abraço despreocupado, uma saudade suave,
espaço para plantar e deixar ver se cresce amor... Reciprocidade.
Não há lugar para mim.
Insistência vil e desnecessária faz parte de um passado
que me ensinou a ferro e fogo auto cuidado e amor próprio.
Limites de um ser para outro. Limites de si para si.
De que adianta ser mais um número, um rosto,
voltar a prisão da aparência e dos gestos comedidos,
vitrine de horror que alimenta egos cegos.
Vou embora porque não quero ser novamente de papel,
descartável e pautada, modelada de acordo com a vontade alheia.
Você que fique e vá para onde quiser, se repartindo até não mais se encontrar,
até chegar à noite e você não suportar a realidade e tomar o chá da ilusão,
calma densa e falsa, assim as verdades nunca serão alcançadas
porque você prefere, ainda, viver de pequenas mentiras diárias.
Fico com a lembrança do rapaz simples, de camiseta, short e sandália que pediu
meu telefone numa noite onde as estrelas brilhavam em seu rosto.
Para mim você acaba ali.

domingo, 17 de junho de 2018

Dos ossos as cinzas

Por todas as esquinas ela sentia a leveza e o peso.
Por que se incomodar se não estava apaixonada?
Por que sentir calafrios e o vazio se sabia o que ia por dentro do coração e cabeça do outro?
Ela arrancava toda lembrança dele como se a pele arrancasse.
Cobra coral precisando se refazer.
No encontro com seus eus e sua Força Vital
Ouviu que não era necessário falar palavras sagradas ininteligíveis
ou em qualquer outro idioma que não fosse o seu para fazer parte
Conhecer o sua herança, aquilo que lhe fora dado e aguardava o seu amadurecimento.
Ela aguçava a consciência, os ouvidos da alma para ouvir
que agora era hora de criar sua própria linguagem
Sua maneira de expressão com o que podia ver e sentir
Ao tocar as pessoas, ao pensar nas pessoas
Era o seu inferno aquele conhecimento? Foi por muito tempo.
Multiplicando-se à sua dor de viver
Agora ela sabia e aprendia que aquilo, na verdade, a fortalecia
causando expansões sensoriais, cognitivas, psíquicas
Transcendências para além de suas definições
Alma de serpente encantada, aprendendo que cruzava os caminhos para construir, renovar
Ouroboros despertando em seus ossos, pulsando em seu sangue...
Um dia soprará suas cinzas
Carregando mutações dentro de si imaginava sempre:
Quem amaria uma mulher assim, de metamorfoses?
Mulher água, fogo, ar, terra, éter, cósmica?
Não era para ensinar alguém a amar, era para se amar junto
Então soube: aquele que a amaria só poderia ser alguém
tão mutante quanto ela, ou ao menos que compreendesse
assombrações e diferenças.
Aprendia a se surpreender com as simplicidades do cotidiano
lágrimas faziam sua consciência fluir feito
água corrente de rio, que sabe aguardar seu encontro com o mar



segunda-feira, 28 de maio de 2018

Estrelas em pleno meio dia

A gente saboreia e chora esse gosto de amor
Se despede e se perde na multidão em pleno meio dia
Atravesso os dias sem perturbações
Sem que a lembrança dos teus olhos
e a visão do teu sorriso cause sofrimento
Estive tão acostumada com a tristeza
Aprendi que estar em paz ou contente era estranheza
A normalidade era a dor, quando não precisa doer
Conscientizo-me do movimento que a vida fez, faz
A sua ausência ou a sua escolha em partir
não precisa encher todos os momentos de pesar
Ser cárcere para minhas emoções amadurecidas
aprontadas para o teu paladar
Contigo eu pude exercer a minha novidade
Estar feliz com o que tenho, sendo muito, sendo pouco, sendo nada
Estar bem comigo mesmo sozinha
Eu sendo a minha grande companheira
Eu sei, todas as vidas dançam em meus passos
Caminho por entre ecos, lembranças,
aprendendo a contemplar e guardar o que me constrói

A gente se reconhece e se esquece
Marca a vida um do outro e floresce

 


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Desconhecer

Esperar, no fundo acreditando que não virá.
Lembrando para na verdade deixar olvidar.
Sentindo no raso para não se apaixonar.
Deixando passar para não ficar, não parar
em nenhuma memória ou imagem simbólica,
semiótica brincando com giz coloridos
nas paredes das cidades dentro do peito.
O coração pulsa, enquanto o cérebro processa...
Todas as falas, gestos, endereços, sons,
texturas, sabores, cores, tons, nuances diversas
no mosaico caleidoscópico da vida num breve momento
da grande experiência de existir.
Vivo como a ave que plana sem hora para mergulhar no voou,
como quem flutua por entre águas calmas.
Talvez isso seja viver para si.
Tomar-se.
Talvez seja esse um tipo de solidão criadora.
Ela me disse: É a pessoa. A hora que não é a exata.
Como saber?
Às vezes viver com o desconhecido seja uma chave
para aprendizados não catalogados nas bibliotecas, teorias e pesquisas
mundo adentro, mundos afora.


Um segundo no infinito

Meu corpo está fechado. Ainda magoado.
Meu desejo está encolhido num canto
esperando ser chamado devagar, colocado no colo,
e brandamente ser acordado.
Minha boca treme pelas palavras inauditas,
minha língua amarga e entorpecida por aquela dor já quase esquecida.
Finge que você é apaixonado por mim
Que eu sou sua menina, preciosa e tão linda,
que você quer cuidar, quer acariciar como se fosse feita de algodão,
de nuvem, e me abraça forte e de manso, para eu não sumir feito bruma.
Me olha como se eu fosse a única pessoa que você queria ver naquele momento
O único lugar aonde você gostaria de estar.
E me desperta novamente, mansamente.
Me toca de leve, finge que o infinito é aqui
e meu corpo é o teu reino, teu lugar secreto, teu esconderijo.
Me olha como você olha o mar e mergulha em mim.
Faz de conta que eu sou tua imensidão,
tua coragem, o lugar onde você pode tirar as máscaras, se desnudar.
Sê frágil no meu peito, deixa tuas lágrimas correrem
sobre o meu corpo como chuva, como gota de orvalho na madrugada da tua vida que está amanhecendo para a novidade.
Diante do abismo, você olha e tem medo, você quer voltar,
olha de novo e você vai ver a minha mão estendida ao seu lado, é só agarrar,
eu pulo junto contigo.
Nossas asas se abrirão, imensas, e voaremos
sobre as planícies, rios, campos silvestres.
Alcançaremos nossos sonhos, conquistaremos o nosso mundo,
recuperaremos a nós mesmos para a nossa paz.
Encosta tua cabeça na minha, seja só um homem
eu sou só uma mulher, dois universos que se buscam,
sem receio, sem definições, sem precisar provar nada,
sem se esforçar, descansa teu mundo em mim.
E talvez assim, calmos e entregues, meu corpo floresça novamente
e você possa ver o quão valioso você é,
o quão estimado, que não é tão solitário,
e a maior beleza que você carrega está dentro do teu peito.
Tua cabeça estrela principal de uma galáxia.
O cosmos se refaz em ti.



sábado, 5 de maio de 2018

Remontagem

Por muito tempo a dor esteve aqui dentro, sem forma, crescendo a medida que eu também crescia, e me sufocava.
Se misturava aos meus gostos, ao meu jeito de olhar, aos sabores que eu experimentava, as músicas que eu ouvia, mãos que eu tocava, abraços, beijos, despedidas, chegadas e partidas de pessoas queridas da vida que ao passo que se desmanchava, se alinhavava, num tear emaranhado.
Nós que para serem desfeitos seria preciso cortar as linhas que os faziam entranhar tecido da existência. Fazer buracos, talvez estragar o tecido do viver.
Já não sabia o que era eu e o que era a dor. Não sabia onde ela começava e eu terminava.
Dois passos, um era meu o outro... dado por ela.
Ela falando na minha voz, acordada com a minha insônia, se alimentando do meu cansaço.
Cair em abismos profundos. Tive as asas cortadas tantas vezes. O corpo cravado de espinhos, de lascas de pau e rocha, de esquecimento e indiferença.
Caminhei com a morte. Asfixiada com as mãos pesadas da solidão que consome.
O tempo virou. E dois olhos profundos que escondem o que sentem, ao passo que revelam
viu a minha máscara, minha cara pintada, meu corpo dolorido adornado.
Para além da aparência sua energia me envolveu inteira e eu deixei.
Enlaçados, experimentamos caminhos, enlevos, inebriados transcendemos.
Da fusão de duas forças, supernova explodiu entre nós.
Desabei das nuvens para onde seus braços e abraços me levaram.
Diante do abismo, novamente, foi a primeira vez que eu hesitei.
E precisei de ajuda para voltar a ver, a andar, a sorrir, a falar, a continuar.
Aquela água de mar veio me envolver novamente. E eu que tanto queria morrer no mar.
Suas ondas me envolveram num abraço, seus mistérios me confrontaram.
Andando pelo asfalto frio, longe daquele mar, um lampejo fez tudo se iluminar novamente dentro de mim.
Quem eu era, o que eu queria, como era quando eu sonhava?
Havia encontrado a raiz de toda aquela dor que insistia em engolir a minha identidade, meu gosto pelas coisas, as cores e formas de meus cabelos.
Eu não gostava era da minha vida como parecia, uma prisão. Minha casa, meu quarto, que caminhos seguir para liberdade? A desesperança causou toda a dor. Inverdades e ilusões construídas por corações magoados me fizeram acreditar que eu não podia, que eu era nada, ninguém, sem força, sem potencial, não conseguiria por mais que tentasse.
A prisão. Foi ela que me adoeceu. A ideia da prisão, de não haver saídas, de não poder ir embora, as limitações, incapacidades acreditadas.
Depois de descortinar e desnudar a Dor, o que eu vou fazer agora?
Quem eu vou ser? Talvez essa seja a primeira vez em toda vida que eu realmente me reconstrua.
Renasça. Fênix que esperava voltar a voar em fogo vivo. Dragão encantado que dá a volta em si mesmo, aludindo a grande serpente que engole a própria calda, Infinito.
O tempo que eu penso que seja para a solidão, antes é o de começar a viver.
Desta vez sem dor, sem culpa, sem pesos, lembranças magoadas, mãos ensanguentadas, peso nas costas.
Olhos limpos. Caminhos abertos. Passos leves.
Estou viva.

domingo, 22 de abril de 2018

Uma nota de destruição

Helena tinha o fitinha na mão, queria se sentir desacreditada enquanto a mirava no ar.
Mas conhecia o seu corpo e os sinais do tempo.
Havia algo crescendo dentro dela, algo que tudo nela negava.
Jamais quisera ser mãe. Ou quem sabe, talvez quisera num tempo muito distante,
quando os sonhos ainda eram doces e havia esperança brincando em cada esquina.
O que faria? Dominada pelo desespero da impossibilidade de caminhos que não via,
Helena se contorcia, tremia, convulsionava de choro.
Uma solidão densa abraçou toda sua existência e a cada hora que passava,
o abraço apertava, sufocando os pensamentos e a vida de Helena.
A quem recorreria?
Neste país, onde a mulher tem seus direitos limitados, recortados de acordo com a vontade
do Estado Patriarcado, o Estado masculino, o Estado em todas suas formas violentas, dominadoras,
contraditórias engolindo todo ser que dele não participa das vontades ou dominação.
Na ilegalidade Helena procurou assentar seu  consolo angustiado.
Remédios para reumatismo que, tomados de determinada forma, corroía não somente
o saco embrionário de 5 semanas em seu ventre, mas consumia seu interior feito o câncer,
que não há muito havia levado uma parte do seu corpo.
Fora da ficção não existia troca equivalente.
Uma. Duas. Três vezes Helena rasgou-se de dentro para fora. Nada acontecia.
E aquele algo continuava a existir junto com ela.
Medicina fria a perguntar e ditar regras e normas vis.
Com dinheiro tudo se compra nesta vida. O dinheiro paga silêncios, compra abrigo,
amores mascarados fadados ao vazio e fracasso, mas com tempo suficiente para enganar o dor.
Aonde está o pai? Pai? Se não há criança, nem cria, nem ela mesmo era mãe
como poderia haver um pai?
Talvez um parceiro. De uma noite distante de paixão, onde tudo parecia êxtase e transcendências.
Parceiro de delícias? Não havia ninguém, só a solidão a lhe agarrar forte pelo pescoço.
São dois apenas no momento do sexo, fora dele existe apenas a mulher sozinha.
Helena ruminava a história. Chegou um tempo em que já não conseguia chorar.
Camisinha, pílula do dia seguinte, período de fertilidade alto...
Embaixo do chuveiro, enfiava objetos pontiagudos, cortantes, redondos dentro de si.
Seu ventre era um amigo magoado.
Em vão Helena batia forte em sua barriga, chorava um choro seco, de deserto, sem lágrimas.
A solidão aumentava. A impossibilidade de estar sóbria, acordada, o sufoco de esperar o destino incerto.
Pela quarta vez Helena tomou as pílulas que rasgavam o seu útero.
No desamparo de esperar as horas que corriam e o sangue que não vertia,
a mulher sem fé, porque acreditar já não conseguia, buscou ingenuamente
no submundo óptico e tecnológico o misticismo, sua última prece antes de morrer.
Lia e fazia tudo de acordo com os comandos.

Queria chorar, berrar bem alto, enfiar uma faca no peito, se abrir ao meu. 
Já desacreditada, Helena sentou no vaso sanitário, encostou a cabeça na pia, desejando
descobrir ao amanhecer uma maneira para morrer.
Quando se levantou viu que pequenos pingos de sangue corriam entre suas pernas.
Foi a fé? Fora a medicação, que já tóxica em seu corpo, partira, enfim, o elo entre ela
e a possibilidade de outra vida?
Amanhecia, mas Helena era toda escuridão. 
No hospital ouvira a palavra que não deveria soar como crime, aborto. 
Aborto não era somente interromper uma gravidez indesejada, não era somente assegurar o direito da mulher escolher ser ou não ser mãe,
permitir ou não uma existência de se desenvolver, coração, cérebro, emoções, vida e estatística neste mundo.
Aborto era a morte nela. Era a morte nela sem morrer. Era a dor personificada, materializada.
Procedimentos para Helena não morrer. Curetagem. Injeções, Hipotermia.
Choro. Cumplicidade na atmosfera fria. Repouso por alguns dias. Solidão.
"Para onde vai a minha vida agora?"
A dor dentro de Helena era maior que o mundo fora dela.
Era maior do que a sua consciência. Era maior do que tudo. 
Todos os dias de angústia, todas as pessoas de sua importância e amor que foram afetadas pelo 
seu estado de alerta, pela sua tormenta. A noção de que seu corpo não era seu de verdade. Tantas questões, tantas e tantas outras histórias na história dela.
Helena queria ser forte. Corajosa. Ter esperanças. 
Helena era só desespero, inércia, apatia, dor, silêncio perigoso. 
(...)
Num momento a vida florescendo. Noutro tudo era devastação.
O que faria? A quem pedir ajuda? Como continuar vivendo?
Helena só existia dormindo, dopada, calada, fria.


Helena em Contos de Enlouquecer