terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O sopro de um toque

Era manhã de sol. Te vi acenando do outro lado da rua.
Músicas cantavam mentalmente teus gestos.
E a tua presença
na terra,
no dia,
na minha vida já não tinha aquele peso antigo.
Não havia paixão. Intensidade, urgência.
Meu sorriso escapou, sorrateiro, como um suspiro.
Eu soube que os dias ruins haviam ficado para traz.
Pessoas, situações, promessas, amizades possíveis, confiança frágil.
Acenei de volta. Você sorriu e seguimos caminhos diferentes.
Ela me pergunta como eu me sinto.
Não sei dizer, precisar emoções, humor.
Talvez se eu dissesse que queria chorar, gritar em todas as esquinas,
tomar banho de chuva, levar um choque,
dormir e não mais acordar. Ter esperança.
Mas, eu não sinto nada.
Não toco, não falo, não experimento o vazio.
Apenas o nada.
Então, caminho pelas ruas entorpecida.
Volto para casa e me deito.
Às vezes eu queria uma vida diferente. Possibilidade.
Outras, eu só queria mesmo evanescer, não ser.
Sem consciência, necessidade, matéria, memória.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das coisas que eu queria te dizer Carta #1

Teus olhos, o maior símbolo da tua existência para mim.
Tuas cores mudaram, como foi mudando as coisas no teu coração.
A primeira vez que te vi, efetivamente, foi nos festejos de São João do ano que passou,
você de preto, cheio de cores e desenhos pelo braço, sua má postura,
seu jeito de estar para além de tudo que te rodeava.
Você nunca parece estar no lugar onde está, fisicamente.
Talvez porque não esteja, ou não nas vezes em que te vi.
Sempre imaginando o futuro.
Eu nunca cheguei a pegar na sua mão.
E desde a segunda vez que te vi nunca mais fui a mesma pessoa.
Sua existência ligou algum botão dentro de mim. Acordou algo.
Eu procurei me aproximar, consegui chamar à sua atenção.
Foi como areia escorrendo entre os dedos.
Assim como você se abriu para mim, no momento seguinte era o estranho dos dias de hoje.
Por que eu tenho que ficar com essas memórias?
Por que eu tenho que te sentir com essa intensidade?
Eu não posso acreditar que você sinta algo por mim.
Alguma bondade, simpatia, ou coisa semelhante.
Eu não sou ninguém importante. Só uma mulher com um jeito diferente de ser
que gosta de você. Gosta de um jeito tão estranho quanto.
Que já te escreveu mensagens tantas, te enviou e-mails,
te ofereceu um lugar na vida, te ofertou o coração.
Você está tão distante. Você é distancia. Não pertencemos a uma realidade comum.
Suspiro por imaginar que poderia te tocar, fazer carinho pelo seu rosto,
ver teus olhos se fecharem e se abrirem no instante seguinte, bem devagar,
com aquela doçura e calma que só consigo ver neles.
Somos estranhos.
Em breve você vai conhecer alguém para te envolver, te fazer sorrir daquele jeito bonito,
que faz a noite se iluminar inteira.
Dias desse eu tive uma noite sombria.
O teu sorriso foi a minha melhor memória.
Foi com ele que consegui produzir um patrono.
Eu te escrevi, e por duas vezes você disse que me responderia.
Eu esperei. Esperei pela resposta que eu sabia, não viria, não virá.
Eu nunca saberei como você se sentiu ou se sente de verdade.
Não sei até quando escrevei essas cartas para você, Fonte de impulsão para
minhas expansões. Cartas que você jamais lerá.
Não sei até quando ficarei triste pelo "nós" não existir.
Não quero mais esperar. Às vezes, eu penso que a pessoa que eu me apaixonei não existe mais.
Existiu algum dia?
Não sinto que tenho direitos de te dizer mais uma única palavra que seja.
Você está nas músicas que escuto. Nos filmes que vejo.
Em tudo que escrevo. Quando me visto, quando estou tão cansada para sequer existir.
Você está em mim, está em tudo.
E choro quando penso em você.  Pois, você jamais estará aqui.
Você dorme e acorda comigo. Na minha solidão tem você.

Um beijo que eu nunca dei.
Até a próxima carta. Minha contemporânea mensagem na garrafa lançada ao mar, incertezas para o infinito.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A pedra no peito

Foi errado.
Disse. Prometeu. Se enrolou nas palavras e nas ações.
Se perdeu nas atitudes, por causa dos fantasmas de antigamente.
Monólogos por email nunca mais.
Mensagens sem respostas, suspiro no escuro.
Conversa importante só olho no olho. Você já deveria ter aprendido
Esqueça as receitas, Joana.
Esqueça os conselhos, esqueça de esquecer quando dói.
Não se abafa dor, não dá para guardar ou tentar fingir uma coisa assim.
Foi errado e você procura consertar.
Deixe quebrado. Aconteceu.
Você já anda tão aos pedaços procurando
colar relações rompidas, reanimar corações adormecidos,
acordar o que já morreu.
Você se julga, se condena, se cobra, se maltrata.
Jogue fora tudo desde antes até agora.
Largue as cordas.
Esfregue os pés e caminha, do teu jeito.
Foram vozes demais.
Espera.
Não por alguém ou por algo que venha de fora.
Espera o teu tempo, o tempo das situações amadurecerem dentro de você.
Àquele livro, o filme, o significado do sorriso.
Interpreta e desperta.
Se olha no espelho, o passado não precisa pesar assim.
Até eu devo pedir desculpas, porque não se trata de erros ou acertos,
mas de aprendizado e limites.
Se conhece, se desprende e vai.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

en-volta cósmica

Diga em voz alta. Escreva. Cole nos postes das cidades. Piche nos muros...
A indignação, aquela tristeza.
A dor engoliu a vida. Silenciou o canto. Anoiteceu o olhar. Tapou os ouvidos.
Andar sem rumo pelas ruas não vai diminuir a falta de ar, de respeito, o desânimo.
Não vai dar o consolo que o corpo e a mente precisam.
Nunca mais.
Não adianta mais rasgar a pele para marcar na carne palavras e juramentos vãos.
Verter o sangue como ritual de partida. Como morte simbólica.
Se mutila aos poucos para não acabar de uma vez.
Como é possível sorrir do jeito que ela ri e sentir tanta dor ao mesmo tempo?
Como ela pode ser tão colorida e tão obscura?
Ser tão suave e iluminada e tão intensamente destruidora de si?
Por fora ela brilha, por dentro ela está aos cacos.
Como é possível? Como?



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Escreve com as mãos, a memória, com o sangue, todas as emoções na ponta dos dedos, derramando pelo papel, teclado, água molhando o SOS escrito na areia.
Teu nome passeia pela minha boca como dedos imaginários, acariciando a pele morna.
Meu corpo anunciando a morte iminente. Sede. Sede do teu mundo inteiro.
Teus olhos estão sempre diante de mim. Talvez..., sim, talvez eu tenha te inventado.
Tua presença irremediavelmente inalcançável.
Uma morte separou as nossas vidas.
Escrever o que nunca senti, nunca vivi. Reescrever o que vivo, experimento.
Ir de encontro com a realidade que vejo, olhos mareados e míopes, o avesso no espelho.
Contracultura, contra vida-máquina?
A brutalidade do mundo agora, das guerras dos homens, paralisa
minhas ações por visões atormentadas.
Como serei resistência? Como?
Enquanto penso em não enlouquecer, em amar, pesquisar
ter um emprego diferente, milhões morrem das maneiras
mais diversas de tortura e injustiça.
Me perdoe se eu não continuar acreditando.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Meio do caminho

Estou em pânico.
Estou desesperadamente angustiada.
Mantenho-me de pé, diante do tempo,
sentindo todas as memórias dialogando fervorosamente
com as lembranças que eu tento silenciar.
Todas as vidas, todas as pessoas,
tudo que não foi dito, o que deixou-se de lado.
Todas as ilusões vieram bater à porta,
chamando pela loucura.
Aonde ela está?
Já está aqui? Dentro de mim, caminhando comigo?
A obrigação da sanidade, do controle, da disciplina me sufocam.
Esqueço meu nome, a data em que nasci,
a cor de meus cabelos, como pronunciar uma palavra.
Estou terrivelmente assombrada

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Tabu

Morte.
A morte anunciada
A morte premeditada
A morte subjacente
A morte proclamada
A morte tabu
A morte é o fim.
Em todo fim existe um recomeço?
Recomeço na morte
A morte oportunizando um recomeço
Matar o momento, a lembrança daquele sorriso,
a mensagem enviada e não respondida,
o amor solitário no meio da rua,
a esperança morta de sede.
Açúcar para você que tem câncer.
Açúcar refinado para o diabético.
Doce é a morte, o morrer, o esquecimento total.
Teu olhar na memória.
Como rito, a morte foi preciso, para a reconstrução
de uma outra história, sem que existisse as marcas
da tua existência.
A morte em mim, em ti, nas palavras, recordações,
imagens, pensamento, emoções, publicações.
A violência na morte.
O silêncio na morte.
A incompreensão da morte que grita
A dor da morte não resolvida.
Meu passo, minhas roupas, minha língua...
As marcas da morte, o sabor da morte.
Morrer afinal. Não ser.
Egunguns dançando com suas roupas coloridas e exuberantes
no terreiro onde a poeira e o encanto
envolvem e enlaçam todas as almas, todos os olhos,
enfeitiçando o caminho onde Iku espera acenando.
A morte. Morte. Morte...