terça-feira, 10 de abril de 2018

Olhos de serpente

Eu sei.
Com aquela taça de vinho na mão ela é perigosa.
Ter sangue frio é estar morto para alguma coisa,
ou ter a morte dentro de sim, corroendo tudo feito câncer.
Não sei quando ela escolherá ter sangue frio
Sei que prefere morrer de intensidade, com sangue fervendo nos olhos.
Não adianta vir ou ir com conversa de calma e meio termo
Ela conhece todos os momentos e sabe quando é medo o que você tem e não cuidado .
Eu tenho medo dela, mas não queria
Sei do que ela pode me mostrar, me proporcionar, me ensinar
como alguém que anda na corda bamba
Mas o medo me constituiu, me ensinou a ser quem sou, a me proteger.
Estou diante dos seus olhos de serpentes, olhos encantadores
dos quais eu poderia ficar a eternidade decifrando a cada novo momento
mistérios infinitos e delícias para além do que um dia imaginei
com a calma de quem toma um veneno, de quem é infectado e espera o fim.
Mas fui cunhado pelo medo... Da perda, da felicidade, do silêncio, da solidão, do amor,
da flor que pode estar vermelha e escarlate num momento e num outro ser treva e morte.
E lambendo os lábios depois do gole grande de vinho ela sorriu e me disse que a morte é caleidoscópica.
Tenho medo de confiar e seguir adiante para o abraço dela
E sou um idiota por não me entregar
Não enfrentar o medo e preferir perdê-la
Assim não sofrerei com a angústia do "e se"
Distanciando-me vejo nos olhos dela o mesmo sentimento que existe em mim
E descubro, de súbito e num susto, que ela sabe,
que ela me deseja exatamente com tudo o que tenho e sou.
No momento seguinte, estou obscurecido, caído no abismo de mim mesmo.
Distante, outra vez, da oportunidade construída feito sonho quente e manso
que me embala nas manhãs antes de levantar, no entre sono.
Seus olhos para sempre lembrando dentro de mim.




segunda-feira, 26 de março de 2018

Um nome no silêncio

Por entre todas as distâncias me pergunto: Qual o seu nome?
Através dos muros da cidade, das paredes das casas, do concreto que esconde, das esquinas e ladeiras, que, como sombra diante de meu olhar, me afastam de ver o que pretendo.
Nomear o que sinto, refrear o que respiro, aspiro, expiro.
Muitas vezes sabendo que a morte do sentir será pedida, ordenada, ainda que a necessidade de reciprocidade ou expectativa não exista.
Se acaso for um processo meu, infinitamente pessoal, de uma realidade que só a mim pertence viver em todos os aspectos, para além das ilusões do sonho e da noite, por quê, me pergunto, preciso falar?
Preciso?
Dizer, talvez, somente, a mim mesma, o gosto, o tom, o som, texturas diversas o que me faz crescer e expandir a alma, me atiça e renova os sentidos.
Por que, agora, neste exato momento, me sinto como boneca que arrancaram o braço, mas esse ainda se encontra preso pela manga do vestido?
Por que me sinto com a cabeça torta, jogada num canto, sem saber quando serei olhada, serei consertada, encaixada e libertada novamente?
Eu tive o vislumbre de uma vida sem dor.
Eu, que jamais, sequer, imaginei que pudesse haver a possibilidade de existir sem que a vida fosse essa dor que me dilacera o peito, devagar, dia e noite, desenhando recortes de lâmina afiada nas minhas carnes febris?
O asterisco na palavra veio para me fazer saber que é possível experimentar viver sem doer tanto, contudo, é preciso ter cuidado com a língua quando se sente no total.
Ouvidos e corações diversos não estão preparados para sentimentos nus e despretensiosos.
Os signos se prendem à características determinantes do zodíaco, maníaco.  E as almas seguem desperdiçando oportunidades por causa do horóscopo.
Eu dançava uma ciranda. Disseram para eu ir devagar. Como pode o que roda não rodar?
Perdi o ritmo e o passo.
Não fazia mais sentido ou graça continuar.
Desci a rua com sapatos nas mãos, a saia em silêncio e o sentimento sem nome pulsando
em todo corpo, como letreiro iluminado numa casa de show abandonada.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Campo de batalha.

Dedos para que toquem o invisível, apalpem a abstração de meus pensamentos arruinados pela dor de décadas a me cegar os olhos e a me comprometer os sentidos. Sou toda tato. Quero pegar a dor, torná-la substancial o suficiente... e arrancá-la, ter os dedos ensanguentados, as mãos rasgadas pelos espinhos amolados das raízes da tormenta. 
Preciso me concentrar, ser aquilo que ainda não sou, contudo, sinto que posso ser. Tudo aquilo que sei que ainda não sou pois a inquietação da memória me tira de todo rumo certo, de toda linha reta, dos meus pontos exatos de orgasmos, para além do corpo, para além da consciência. Ao passo que sou toda sentidos, minha pele, meu coração se estende por toda matéria que me constitui. Só é possível encontrar o caminho por zigue-zagues.
Confusamente adentro os tormentos da noite. Estou presa dentro de mim mesma, estou gritando, me debatendo. Quem pode ver ou ouvir? Minha vertigem, minha vontade de vomitar, meu desespero, minha necessidade de acordar?  Aonde está? O inimigo ou inimiga de mim? Histórias de fé  e maldição me perseguem. Quero me livrar das cordas e correntes da crença bruta que engoliu a minha vida ou tudo que eu acreditava ser realidade. 
Quero romper com esse círculo, sair da roda. Sumir pela estrada desconhecida, morrer sem remédio, enfrentar o tédio de não participar de um mundo que nunca fui parte. Não quero mais obedecer, abaixar a cabeça, ceder. 
Preciso me concentrar, mas tudo é confusão. Inquietações profundas me tiram esperanças remotas de sono e perda de memória. Minha mente, meu campo de batalha. Ainda que eu seja totalmente destruída, eu sairei dessa trincheira de ilusão e cruzarei a fronteira. 
Tapem os ouvidos, eu explodirei alto.



terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O sopro de um toque

Era manhã de sol. Te vi acenando do outro lado da rua.
Músicas cantavam mentalmente teus gestos.
E a tua presença
na terra,
no dia,
na minha vida já não tinha aquele peso antigo.
Não havia paixão. Intensidade, urgência.
Meu sorriso escapou, sorrateiro, como um suspiro.
Eu soube que os dias ruins haviam ficado para traz.
Pessoas, situações, promessas, amizades possíveis, confiança frágil.
Acenei de volta. Você sorriu e seguimos caminhos diferentes.
Ela me pergunta como eu me sinto.
Não sei dizer, precisar emoções, humor.
Talvez se eu dissesse que queria chorar, gritar em todas as esquinas,
tomar banho de chuva, levar um choque,
dormir e não mais acordar. Ter esperança.
Mas, eu não sinto nada.
Não toco, não falo, não experimento o vazio.
Apenas o nada.
Então, caminho pelas ruas entorpecida.
Volto para casa e me deito.
Às vezes eu queria uma vida diferente. Possibilidade.
Outras, eu só queria mesmo evanescer, não ser.
Sem consciência, necessidade, matéria, memória.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Das coisas que eu queria te dizer Ou Carta nunca enviada

Teus olhos, o maior símbolo da tua existência para mim.
Tuas cores mudaram, como foi mudando as coisas no teu coração.
A primeira vez que te vi, efetivamente, foi nos festejos de São João do ano que passou,
você de preto, cheio de cores e desenhos pelo braço, sua má postura,
seu jeito de estar para além de tudo que te rodeava.
Você nunca parece estar no lugar onde está, fisicamente.
Talvez porque não esteja, ou não nas vezes em que te vi.
Sempre imaginando o futuro.
Eu nunca cheguei a pegar na sua mão.
E desde a segunda vez que te vi nunca mais fui a mesma pessoa.
Sua existência ligou algum botão dentro de mim. Acordou algo.
Eu procurei me aproximar, consegui chamar à sua atenção.
Foi como areia escorrendo entre os dedos.
Assim como você se abriu para mim, no momento seguinte era o estranho dos dias de hoje.
Por que eu tenho que ficar com essas memórias?
Por que eu tenho que te sentir com essa intensidade?
Eu não posso acreditar que você sinta algo por mim.
Alguma bondade, simpatia, ou coisa semelhante.
Eu não sou ninguém importante. Só uma mulher com um jeito diferente de ser
que gosta de você. Gosta de um jeito tão estranho quanto.
Que já te escreveu mensagens tantas, te enviou e-mails,
te ofereceu um lugar na vida, te ofertou o coração.
Você está tão distante. Você é distancia. Não pertencemos a uma realidade comum.
Suspiro por imaginar que poderia te tocar, fazer carinho pelo seu rosto,
ver teus olhos se fecharem e se abrirem no instante seguinte, bem devagar,
com aquela doçura e calma que só consigo ver neles.
Somos estranhos.
Em breve você vai conhecer alguém para te envolver, te fazer sorrir daquele jeito bonito,
que faz a noite se iluminar inteira.
Dias desse eu tive uma noite sombria.
O teu sorriso foi a minha melhor memória.
Foi com ele que consegui produzir um patrono.
Eu te escrevi, e por duas vezes você disse que me responderia.
Eu esperei. Esperei pela resposta que eu sabia, não viria, não virá.
Eu nunca saberei como você se sentiu ou se sente de verdade.
Não sei até quando escrevei essas cartas para você, Fonte de impulsão para
minhas expansões. Cartas que você jamais lerá.
Não sei até quando ficarei triste pelo "nós" não existir.
Não quero mais esperar. Às vezes, eu penso que a pessoa que eu me apaixonei não existe mais.
Existiu algum dia?
Não sinto que tenho direitos de te dizer mais uma única palavra que seja.
Você está nas músicas que escuto. Nos filmes que vejo.
Em tudo que escrevo. Quando me visto, quando estou tão cansada para sequer existir.
Você está em mim, está em tudo.
E choro quando penso em você.  Pois, você jamais estará aqui.
Você dorme e acorda comigo. Na minha solidão tem você.

Um beijo que eu nunca dei.
Até a próxima carta. Minha contemporânea mensagem na garrafa lançada ao mar, incertezas para o infinito.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A pedra no peito

Foi errado.
Disse. Prometeu. Se enrolou nas palavras e nas ações.
Se perdeu nas atitudes, por causa dos fantasmas de antigamente.
Monólogos por email nunca mais.
Mensagens sem respostas, suspiro no escuro.
Conversa importante só olho no olho. Você já deveria ter aprendido
Esqueça as receitas, Joana.
Esqueça os conselhos, esqueça de esquecer quando dói.
Não se abafa dor, não dá para guardar ou tentar fingir uma coisa assim.
Foi errado e você procura consertar.
Deixe quebrado. Aconteceu.
Você já anda tão aos pedaços procurando
colar relações rompidas, reanimar corações adormecidos,
acordar o que já morreu.
Você se julga, se condena, se cobra, se maltrata.
Jogue fora tudo desde antes até agora.
Largue as cordas.
Esfregue os pés e caminha, do teu jeito.
Foram vozes demais.
Espera.
Não por alguém ou por algo que venha de fora.
Espera o teu tempo, o tempo das situações amadurecerem dentro de você.
Àquele livro, o filme, o significado do sorriso.
Interpreta e desperta.
Se olha no espelho, o passado não precisa pesar assim.
Até eu devo pedir desculpas, porque não se trata de erros ou acertos,
mas de aprendizado e limites.
Se conhece, se desprende e vai.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

en-volta cósmica

Diga em voz alta. Escreva. Cole nos postes das cidades. Piche nos muros...
A indignação, aquela tristeza.
A dor engoliu a vida. Silenciou o canto. Anoiteceu o olhar. Tapou os ouvidos.
Andar sem rumo pelas ruas não vai diminuir a falta de ar, de respeito, o desânimo.
Não vai dar o consolo que o corpo e a mente precisam.
Nunca mais.
Não adianta mais rasgar a pele para marcar na carne palavras e juramentos vãos.
Verter o sangue como ritual de partida. Como morte simbólica.
Se mutila aos poucos para não acabar de uma vez.
Como é possível sorrir do jeito que ela ri e sentir tanta dor ao mesmo tempo?
Como ela pode ser tão colorida e tão obscura?
Ser tão suave e iluminada e tão intensamente destruidora de si?
Por fora ela brilha, por dentro ela está aos cacos.
Como é possível? Como?