segunda-feira, 7 de maio de 2018

Desconhecer

Esperar, no fundo acreditando que não virá.
Lembrando para na verdade deixar olvidar.
Sentindo no raso para não se apaixonar.
Deixando passar para não ficar, não parar
em nenhuma memória ou imagem simbólica,
semiótica brincando com giz coloridos
nas paredes das cidades dentro do peito.
O coração pulsa, enquanto o cérebro processa...
Todas as falas, gestos, endereços, sons,
texturas, sabores, cores, tons, nuances diversas
no mosaico caleidoscópico da vida num breve momento
da grande experiência de existir.
Vivo como a ave que plana sem hora para mergulhar no voou,
como quem flutua por entre águas calmas.
Talvez isso seja viver para si.
Tomar-se.
Talvez seja esse um tipo de solidão criadora.
Ela me disse: É a pessoa. A hora que não é a exata.
Como saber?
Às vezes viver com o desconhecido seja uma chave
para aprendizados não catalogados nas bibliotecas, teorias e pesquisas
mundo adentro, mundos afora.


Um segundo no infinito

Meu corpo está fechado. Ainda magoado.
Meu desejo está encolhido num canto
esperando ser chamado devagar, colocado no colo,
e brandamente ser acordado.
Minha boca treme pelas palavras inauditas,
minha língua amarga e entorpecida por aquela dor já quase esquecida.
Finge que você é apaixonado por mim
Que eu sou sua menina, preciosa e tão linda,
que você quer cuidar, quer acariciar como se fosse feita de algodão,
de nuvem, e me abraça forte e de manso, para eu não sumir feito bruma.
Me olha como se eu fosse a única pessoa que você queria ver naquele momento
O único lugar aonde você gostaria de estar.
E me desperta novamente, mansamente.
Me toca de leve, finge que o infinito é aqui
e meu corpo é o teu reino, teu lugar secreto, teu esconderijo.
Me olha como você olha o mar e mergulha em mim.
Faz de conta que eu sou tua imensidão,
tua coragem, o lugar onde você pode tirar as máscaras, se desnudar.
Sê frágil no meu peito, deixa tuas lágrimas correrem
sobre o meu corpo como chuva, como gota de orvalho na madrugada da tua vida que está amanhecendo para a novidade.
Diante do abismo, você olha e tem medo, você quer voltar,
olha de novo e você vai ver a minha mão, é só agarrar
eu pulo junto contigo.
Nossas asas se abrirão, imensas, e voaremos
sobre as planícies, rios, campos silvestres.
Alcançaremos nossos sonhos, conquistaremos o nosso mundo,
recuperaremos a nós mesmos para a nossa paz.
Encosta tua cabeça na minha, seja só um homem
eu sou só uma mulher, dois universos que se buscam,
sem receio, sem definições, sem precisar provar nada,
sem se esforçar, descansa teu mundo em mim.
E talvez assim, calmos e entregues, meu corpo floresça novamente
e você possa ver o quão valioso é,
o quão estimado, que não é tão solitário,
e a maior beleza que você carrega está dentro do teu peito.
Tua cabeça estrela principal de uma galáxia.
O cosmos se refaz em ti.



sábado, 5 de maio de 2018

Remontagem

Por muito tempo a dor esteve aqui dentro, sem forma, crescendo a medida que eu também crescia, e me sufocava.
Se misturava aos meus gostos, ao meu jeito de olhar, aos sabores que eu experimentava, as músicas que eu ouvia, mãos que eu tocava, abraços, beijos, despedidas, chegadas e partidas de pessoas queridas da vida que ao passo que se desmanchava, se alinhavava, num tear emaranhado.
Nós que para serem desfeitos seria preciso cortar as linhas que os faziam estranhar tecido da existência a dentro. Fazer buracos, talvez estragar o tecido do viver.
Já não sabia o que era eu e o que era a dor. Não sabia onde ela começava e eu terminava.
Dois passos, um meu um dado por ela.
Ela falando na minha voz, acordada com a minha insônia, se alimentando do meu cansaço.
Cair em abismos profundos. Tive as asas cortadas tantas vezes. O corpo cravado de espinhos, de lascas de pau e rocha, de esquecimento e indiferença.
Caminhei com a morte. Asfixiada com as mãos pesadas da solidão que consome.
O tempo virou. E dois olhos profundos que escondem o que sentem, ao passo que revelam.
Viu a minha máscara, minha cara pintada, meu corpo dolorido adornado.
Para além da aparência sua energia me envolveu inteira e eu deixei.
Enlaçados, experimentamos caminhos, enlevos, inebriados, transcendemos.
Da fusão de duas forças, supernova explodiu entre nós.
Desabei das nuvens para onde seus braços e abraços me levaram.
Diante do abismo, novamente, foi a primeira vez que eu hesitei.
E precisei de ajuda para voltar a ver, a andar, a sorri a falar, a continuar.
Aquela água de mar veio me envolver novamente. E eu que tanto queria morrer no mar.
Suas ondas me envolveram num abraço, seus mistérios me confrontaram.
Andando pelo asfalto frio, longe daquele mar, um lampejo fez tudo se iluminar novamente dentro de mim.
Quem eu era, o que eu queria, como era quando eu sonhava?
Havia encontrado a raiz de toda aquela dor que insistia em engolir a minha identidade, meu gosto pelas coisas, as cores e formas de meus cabelos.
Eu não gostava era da minha vida como parecia, uma prisão. Minha casa, meu quarto, que caminhos seguir para liberdade? A desesperança causou toda a dor. Inverdades e ilusões construídas por corações magoados me fizeram acreditar que eu não podia, que eu era nada, ninguém, sem força, sem potencial, não conseguiria por mais que tentasse.
A prisão. Foi ela que me adoeceu. A ideia da prisão, de não haver saídas, de não poder ir embora, as limitações, incapacidades acreditadas.
Depois de descortinar e desnudar a Dor, o que eu vou fazer agora?
Quem eu vou ser? Talvez essa seja a primeira vez em toda vida que eu realmente me reconstrua.
Renasça. Fênix que esperava voltar a voar em fogo vivo. Dragão encantado que dá a volta em si mesmo, aludindo a grande serpente que engole a própria calda, Infinito.
O tempo que eu penso que seja para a solidão, antes é o de começar a viver.
Desta vez sem dor, sem culpa, sem pesos, lembranças magoadas, mãos ensanguentadas, peso nas costas.
Olhos limpos. Caminhos abertos. Passos leves.
Estou viva.

domingo, 22 de abril de 2018

Uma nota de destruição

Helena tinha o fitinha na mão, queria se sentir desacreditada enquanto a mirava no ar.
Mas conhecia o seu corpo e os sinais do tempo.
Havia algo crescendo dentro dela, algo que tudo nela negava.
Jamais quisera ser mãe. Ou quem sabe, talvez quisera num tempo muito distante,
quando os sonhos ainda eram doces e havia esperança brincando em cada esquina.
O que faria? Dominada pelo desespero da impossibilidade de caminhos que não via,
Helena se contorcia, tremia, convulsionava de choro.
Uma solidão densa abraçou toda sua existência e a cada hora que passava,
o abraço apertava, sufocando os pensamentos e a vida de Helena.
A quem recorreria?
Neste país, onde a mulher tem seus direitos limitados, recortados de acordo com a vontade
do Estado Patriarcado, o Estado masculino, o Estado em todas suas formas violentas, dominadoras,
contraditórias engolindo todo ser que dele não participa das vontades ou dominação.
Na ilegalidade Helena procurou assentar seu  consolo angustiado.
Remédios para reumatismo que, tomados de determinada forma, corroía não somente
o saco embrionário de 5 semanas em seu ventre, mas consumia seu interior feito o câncer,
que não há muito havia levado uma parte do seu corpo.
Fora da ficção não existia troca equivalente.
Uma. Duas. Três vezes Helena rasgou-se de dentro para fora. Nada acontecia.
E aquele algo continuava a existir junto com ela.
Medicina fria a perguntar e ditar regras e normas vis.
Com dinheiro tudo se compra nesta vida. O dinheiro paga silêncios, compra abrigo,
amores mascarados fadados ao vazio e fracasso, mas com tempo suficiente para enganar o dor.
Aonde está o pai? Pai? Se não há criança, nem cria, nem ela mesmo era mãe
como poderia haver um pai?
Talvez um parceiro. De uma noite distante de paixão, onde tudo parecia êxtase e transcendências.
Parceiro de delícias? Não havia ninguém, só a solidão a lhe agarrar forte pelo pescoço.
São dois apenas no momento do sexo, fora dele existe apenas a mulher sozinha.
Helena ruminava a história. Chegou um tempo em que já não conseguia chorar.
Camisinha, pílula do dia seguinte, período de fertilidade alto...
Embaixo do chuveiro, enfiava objetos pontiagudos, cortantes, redondos dentro de si.
Seu ventre era um amigo magoado.
Em vão Helena batia forte em sua barrriga, chorava um choro seco, de deserto, sem lágrimas.
A solidão aumentava. A impossibilidade de estar sóbria, acordada, o sufoco de esperar o destino incerto.
Pela quarta vez Helena tomou as pílulas que rasgavam o seu útero.
No desamparo de esperar as horas que corriam e o sangue que não vertia,
a mulher sem fé, porque acreditar já não conseguia, buscou ingenuamente
no submundo óptico e tecnológico o misticismo, sua última prece antes de morrer.
Lia e fazia tudo de acordo com os comandos.

Após isso, acenda uma vela branca num pirex e coloque abaixo dele um papel escrito com caneta vermelha a seguinte frase “alcançar graça imediata”.
Depois, basta rezar com muita fé!
ALCANÇAR GRAÇA IMEDIATA! (repetir três vezes)
“Mãe Querida Nossa Senhora Aparecida Oh! Santa Rita de Cássia Oh! Meu glorioso São Judas Tadeu protetor das causas impossíveis. Santo Expedito, o santo da última hora e Santa Edwiges, a santa dos Necessitados. Intercedei junto ao Pai por mim ( que minha menstruação desça hoje ainda ). Eu vos glorifico e vos louvo sempre curvar-me-ei diante de vós.”
Por fim, reze: um Pai Nosso e três Aves-Marias, dizendo a seguinte frase: “confio em Deus com todas as minhas forças e peço que ilumine meu caminho e a minha vida.”
Ao alcançar a graça você deverá divulgar essa simpatia de alguma forma.

Simpatia dos Santos para a menstruação descer

Segure com a mão direita uma garrafa de água!
Peça para que seu anjo da guarda e a força de todos os santos possa abençoar aquela água. Depois, basta fazer a oração com muita fé e quando terminar beber toda a água!
“Oh! Mãe querida Nossa Senhora Aparecida.
Oh! Santa Rita de Cássia.
Oh! Meu glorioso São Judas Tadeu, Santo da última hora. Santa Edwiges, a santa dos necessitados, intercedei por mim junto ao pai (fazei-me que a minha menstruação desça o mais rapido possivel). Eu vos glorifico e louvo sempre. Curva-me-ei diante de vós.”
Reze um Pai Nosso e três Ave-marias. Amém!



Queria chorar, berrar bem alto, enfiar uma faca no peito, se abrir ao meu. 
Já desacreditada, Helena sentou no vaso sanitário, encostou a cabeça na pia, desejando
descobrir ao amanhecer uma maneira para morrer.
Quando se levantou viu que pequenos pingos de sangue corriam entre suas pernas.
Foi a fé? Fora a medicação, que já tóxica em seu corpo, partira, enfim, o elo entre ela
e a possibilidade de outra vida?
Amanhecia, mas Helena era toda escuridão. 
No hospital ouvira a palavra que não deveria soar como crime, aborto. 
Aborto não era somente interromper uma gravidez indesejada, não era somente assegurar o direito da mulher escolher ser ou não ser mãe,
permitir ou não uma existência de se desenvolver, coração, cérebro, emoções, vida e estatística neste mundo.
Aborto era a morte nela. Era a morte nela sem morrer. Era a dor personificada, materializada.
Procedimentos para Helena não morrer. Curetagem. Injeções, Hipotermia.
Choro. Cumplicidade na atmosfera fria. Repouso por alguns dias. Solidão.
"Para onde vai a minha vida agora?"
A dor dentro de Helena era maior que o mundo fora dela.
Era maior do que a sua consciência. Era maior do que tudo. 
Todos os dias de angústia, todas as pessoas de sua importância e amor que foram afetadas pelo 
seu estado de alerta, pela sua tormenta. A noção de que seu corpo não era seu de verdade. Tantas questões, tantas e tantas outras histórias na história dela.
Helena queria ser forte. Corajosa. Ter esperanças. 
Helena era só desespero, inércia, apatia, dor, silêncio perigoso. 
(...)
Num momento a vida florescendo. Noutro tudo era devastação.
O que faria? A quem pedir ajuda? Como continuar vivendo?
Helena só existia dormindo, dopada, calada, fria.


Helena em Contos de Enlouquecer

sábado, 21 de abril de 2018

Tiro ao alvo

Um buraco se abriu no centro de mim.
Não consigo falar, ouvir, chorar, dormir.
Desaprendi a distinguir formas e cores.
Não sei como nem onde a dor começa e termina.
O que afeta ou como afeta.
Sem olhos. Só tato.
Agarro o travesseiro, sinto meu corpo em contato com o lençol, a cama fria, o tempo fechado.
Algo atravessado na garganta.
O tempo não espera, está correndo.
Eu preciso seguir, mas não tenho pernas.
Um polvo em terra seca, só braços que abraçam o nada.
Uma voz silenciosa e pesada grita em alguma parte de mim.
"Me ajude, me tire daqui!"
Ninguém ouve. Ninguém nunca ouviu ou viu
Aquela lágrima de sangue sempre ameaçando cair do olhar embaçado.
Um buraco no centro de mim.
E me questiono como ainda existe vida
Veias, pulsação, consciência.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

elo

As tuas mãos no meu peito
     teus cabelos entre as minhas mãos
     teu calor entre as minhas pernas
     teu nome adoçando a minha língua

Paredes de vidro realçando as distâncias das nossas vidas entrelaçadas por fios invisíveis Não sei qual o ponto ou a vírgula O lugar ou a hora de sair ficar entrar Lembrar ou esquecer
A minha única salvação é a liberdade total ou a ilusão que posso ter do que é ser livre Te ser livre Te ver livre Livre com você Livre de você Livre por você
Liberdade lambendo nosso corpo, teu mamilo, teu sexo, tua boca macia, tua voz Ser livre entre os teus braços, dentro do teu abraço Teu sussurro quente nos meus ouvidos, que eternizam e esquecem
Como quem enlouquece...
Todas as horas te respiro e suspiro teu espírito que me envolve Te envolve nas distâncias silenciosas e inquietantes meus cabelos, minha temperatura, meu sentimento como uma aura multicolor incandescente e embevecida te abraça te reverbera te lança e me alcança
Teu olhar me entonteia e embebeda
Cabelos, pelos, pelos, pele, dedos... Me salvo e te salvo nos libertando de toda ideia  de laço E de tanto querer ser livres Acabamos misteriosamente ligados um ao outro para além da geografia, da memória, da dor, da inconsciência, da morte E eu já não sei quando recomecei ou quando você passou a ser Um início ou um fim Um ponto final Pontos, vírgulas, palavras engolidas, não ditas, malditas
Tuas pernas, meus cabelos, tua voz... Ouroboro desconhecido renascido em algum momento que não vi, não dei conta, só estou a rodar e rodar e rodar... contigo... teus olhos, tuas mãos, tu
Yin e Yang, o canto da Fênix e a voz do Dragão... O círculo a rodar no infinito de si mesmo.






terça-feira, 10 de abril de 2018

Olhos de serpente

Eu sei.
Com aquela taça de vinho na mão ela é perigosa.
Ter sangue frio é estar morto para alguma coisa,
ou ter a morte dentro de sim, corroendo tudo feito câncer.
Não sei quando ela escolherá ter sangue frio
Sei que prefere morrer de intensidade, com sangue fervendo nos olhos.
Não adianta vir ou ir com conversa de calma e meio termo
Ela conhece todos os momentos e sabe quando é medo o que você tem e não cuidado .
Eu tenho medo dela, mas não queria
Sei do que ela pode me mostrar, me proporcionar, me ensinar
como alguém que anda na corda bamba
Mas o medo me constituiu, me ensinou a ser quem sou, a me proteger.
Estou diante dos seus olhos de serpentes, olhos encantadores
dos quais eu poderia ficar a eternidade decifrando a cada novo momento
mistérios infinitos e delícias para além do que um dia imaginei
com a calma de quem toma um veneno, de quem é infectado e espera o fim.
Mas fui cunhado pelo medo... Da perda, da felicidade, do silêncio, da solidão, do amor,
da flor que pode estar vermelha e escarlate num momento e num outro ser treva e morte.
E lambendo os lábios depois do gole grande de vinho ela sorriu e me disse que a morte é caleidoscópica.
Tenho medo de confiar e seguir adiante para o abraço dela
E sou um idiota por não me entregar
Não enfrentar o medo e preferir perdê-la
Assim não sofrerei com a angústia do "e se"
Distanciando-me vejo nos olhos dela o mesmo sentimento que existe em mim
E descubro, de súbito e num susto, que ela sabe,
que ela me deseja exatamente com tudo o que tenho e sou.
No momento seguinte, estou obscurecido, caído no abismo de mim mesmo.
Distante, outra vez, da oportunidade construída feito sonho quente e manso
que me embala nas manhãs antes de levantar, no entre sono.
Seus olhos para sempre lembrando dentro de mim.