quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O momento para um fim

Cláudia tira a roupa lentamente.
Queria poder ligar o chuveiro e ver o banheiro tomado pelo vapor quente da água,
assim como vira em tantos filmes.
Era desperdício. Desperdício de água, insulto ao mundo, desrespeito com a comunidade.
Desperdício de sonho? Criações do imaginário, que poderiam bem ser recriadas ao seu
prazer e liberdade.
Jogou a roupa usada num canto, olhou seus pés, especificamente para suas unhas.
Queria cores, sensualidade. Mostrar mais os dedos e usar menos botas.
"Sandálias sujam tanto os pés." Naquela vida que levava, Cláudia não poderia ter o pé no chão
ou ter pés empoeirados nos ambientes cheios de ar-condicionado.
Ao invés de ligar o chuveiro, saiu passeando pela casa.
A sua nudez sentindo a atmosfera da casa, em contato com o ar, com aromas,
o vento leve que entrava pela janela entreaberta do seu quarto escuro.
Cláudia parou em frente ao som. Pensou em escolher uma música para cantar o momento.
Aleatoriamente deixou que as canções se iniciassem.
Sentia seu pé no chão, sua barriga à mostra, seu seios, seu sexo, tudo tão natural, sendo sem pretensão alguma.
Tomou água morna do filtro, rodopiou à porta da cozinha, deitou-se no chão do corredor.
Mansamente silenciosa.
Momentos únicos que a faziam sentir que estava viva. Ou o sabor da vida.
Ou ainda o susto de qualquer coisa que lha dava a noção de existir e ser no mundo.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Origem

Caminho pelas ruas acesas
Luzes.
São carros, postes, casas...
E o céu? E as estrelas que haviam dentro de mim?
Nunca me pareceu tão fácil me precipitar
no meio de todo aquele maquinário
Sem drama. Indolor.
Não há salvação.
Estou condenada a doer
A ter o corpo, a alma, a consciência
transpassada, dia após dia,
por sentimentos sem nome
Ao mesmo tempo que me engrandecem
me destroem
Constituída pelas mais diversas visões e emoções inebriantes
e transcendentes
Terrivelmente assombrada, condenada a sentir
o amor que não posso viver
Vai chegar a hora e o mundo vai continuar
nenhum novo acontecimento ou mudança
nem uma folha cairá da árvore
Voltarei a não ser
Desprovida de toda e qualquer consciência
matéria, desejo de liberdade e silêncio total
Minha maldição angustiante é sentir
Sentir tudo no total
Eu não quero mais.





sábado, 9 de setembro de 2017

Estrela apagada

Ele nem bem havia chegado e teve que partir.
Tantos dedos para no final dar nós tão apertados quanto um sufoco.
Tanto pisar em ovos para todos se partirem no fim.
E tudo era tão simples,
Mas a intensidade dela, os seus combates e conflitos,
sua flecha no alvo errado, atingiu em cheio um coração que estava em paz.
Impasses e distâncias.
Ela só suspira e sente aquele velho aperto no peito
de coisa mal feita, de erro cometido,
de sorriso sem graça e festa acabada.
Só lhe restou apagar a luz e seguir
pelos corredores vazios da noite cheia de vozes.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Papo furado

Saiu andando sem saber aonde e como pararia. Queria correr, gritar, dilacerar-se.
Para quê cordialidades e educação sob medida?
"Como você está? E o trabalho? Por onde você anda? O que está fazendo?"
Terrivelmente e aterradoramente ainda viva. Viva?
Ainda complacente, com esses olhos absurdos e essa boca que ri.
A mesma boca que responde às perguntas mais superficiais e cretinas.
O mesmo raciocínio que busca explicações para oferecer a quem quer que considere um absurdo ou um desperdício ela não estar “vivendo uma vida de sucesso”.
E daí que não conseguia dormir? Queria perder a consciência.
Estar desprovida de qualquer senso de identidade, de coerência, traços de sanidade.
Era maldade e confusão a realidade.
E daí que andar pelas estradas da vida dói feito ferro em brasa queimando-lhe as carnes?
Cansou-se de explicar. De sorrir. Ser cordial.
Andará numa solidão estranha. Despirá o que ainda há, suas vestes mundanas e celestes, seu semblante pacífico e toda construção de como deve ser, serenidade.
Cansou de rasga-se. De tomar remédios e venenos, de se jogar da ponte, de cortar a garganta.
De se esquecer. De parecer.
Seguir o relógio e o ritual.
Ela morreu. Ela sabe, sente. Morreu naquela madrugada.
De alguma forma, no entre lugar, aqui e lá.
Definições?
Não irá se desculpar. A casa foi consumida pelo fogo. O templo ruiu e tudo ficou para trás.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

INversão

De quem é a história?
A história é sobre aqueles que se amou?
Dela ou dele?
Contos sobre o abandono e a indiferença?
De como se aprendeu a compreender o que não é dito?
A conviver com a brutalidade, o horror...
Da guerra travada no interior de si?
Na realidade crua e desumana se desenhando a cada novo dia do lado de fora?
Como traçar uma rotina, como acordar todas as manhãs...
Preciso é dormir e acordar, seja a hora que for.
Descobriria que o importante é fazer, e não o momento?
Contudo, há momentos em que determinada atividade toma
formas e significados especiais?
Pediria todas as correspondências solitárias para compor ou recompor a história?
Os emails que só iam. Nunca viam. Via de mão única?
Não seria uma história sobre ele, ou como ela descobriu a compreendê-lo, ainda
que ele não dissesse palavra ou fosse o mais distante e agisse como se desejasse
a ruptura total e o absoluto esquecimento e apagamento dele na vida dela, principalmente.
Estava engasgada com as lágrimas e com as palavras. Engasgada com as pessoas.
Aprenderia, enfim, a viver com a sua singularidade, respeitando suas tormentas,
seu ser indecifrável, suas reticências... Seus sabores múltiplos e aquela solidão? 
A história era e é sobre como existir... Agora, de novo e de novo, amanhã e depois já é pensar demais.



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Asas no abismo


Esmurrou o peito e não sentiu nada. Nem dor, nem vertigem, vontade de tossir, uma única sensação. Estaria oca? Percebeu que não adiantaria tentar cortar a garganta vezes seguidas, tentar mortes amenas quando a dor era brutal, a realidade selvagem em sua vilania.
Mesmo querendo amenizar o peso dado ao próprio fim para a mãe, a irmã, a amiga...
Quem ou o que amenizaria aquele seu vazio desumano?
Havia um buraco. Buracos negros em seu universo engolindo galáxias com sua força de atração.
Não gostava de despertadores nem de ter que ir a compromissos indesejáveis, metódicos, sem viço, obrigatórios.
Uma vida à venda. Enquanto a vida se desgastava, desgostosa.
Já estava morta por dentro?
Os botões... Os botões das roupas soltaram?
O de liga e desliga quebrou na posição desligado em sua história?
Ela esperou uma palavra. A palavra que não veio. Não virá.
Sentia que, por vezes, quando abria os seus sentidos para alguém,
disponibilizava o seu coração, seu corpo, sua atenção era sempre
um caminho que se tornava de mão única, uma insistência sutil e melancólica, uma busca inútil.
Uma prostituta esquecida e rejeitada, totalmente sem valor nas esquinas da vida.
(...)
Magoada? Profundamente ferida? Transpassada ao meio pela lança da indiferença?
Paradoxos.
E ondas de vida e morte, dor e inércia se misturavam, quando não a afogavam naquele mar
de silêncios cheios de angústia.
Poderia viver no entre lugar? Estar aqui, lá e acolá ao mesmo tempo?
Chamou de amigo alguém que fora por muito tempo uma das piores pessoas para ela.
Amou quem queria distância. Como lidar com uma distância que só se realiza no plano físico?
Todos os demônios dentro dela, lembranças, sensações, expectativas, sabores sentidos e imaginados.
O que faria, então? Inventar uma vida? Reinventar sua existência? Como é que se fazia?
Vagava pelas ruas olhando o tempo, às vezes, parava o olhar em alguém.
Já não conseguia ouvir os sons vindos do mundo fora dela.
Precisava de música para esquecer a dor, a dor da dor e o incômodo lancinante do vazio.
Queria se sentir amada, desejada, plena e infinita como o oceano com toda sua força de água, expandindo-se como somente algo inimaginável poderia.
Tanto para dizer, mas estava muda, taciturna, irremediavelmente sem as palavras adequadas.
A impressão de que tudo dito, ainda que com o maior cuidado, causava destruição, desentendimentos, rompimentos para o eternamente.
Estava morta-viva ou carregava em si o potencial da vida e o da morte, num só tempo? As duas experiências coexistindo, sendo uma na outra, não podendo realizar-se sozinhas. Não que fosse a única, todavia, ter a consciência a acordou para um alívio e um mistério que lhe proporcionou certo interesse, onde acreditara já não haver nada.
Cortou seu cabelo como nunca, e se sentia bem. Não era prazer, era a noção de que tudo o que faria era para ela mesma e não teria vergonha ou qualquer sentimento de menosprezo por si, pela mulher que era devido as suas escolhas. Seu corpo, suas cicatrizes, suas lágrimas, sua verdade ou sua inexatidão, sua intensidade e paixão, sua loucura e sua quietude.
Suas marcas.
A reinvenção? Apenas existia e abria seu coração. Não para as pessoas. Para o desconhecido.



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sonho de uma pedra

Estendo a mão e quase sinto meus dedos tocarem o face esquecida então a lembrança se desfaz como fumaça... Num efeito do sonho sou sugada e colocada em outra realidade Não consigo acompanhar os acontecimentos Olho o cenário dos bastidores procurando reconhecer o que é encenado Todas as ações se passam a nenhuma delas eu me conecto Quero sair Sair de mim Não há portas somente corredores Vago por eles... Mão nos cabelos corpo encolhido grito silencioso olhos apertados braço enxugando as lágrimas tenta acordar a boca Como posso tirar esse desespero que pulsa no peito Nada nem ninguém Densidade Mergulhei sem seguranças para voltar à superfície Quando cheguei estava congelada Em vão toco a grossa camada de gelo Chutes e socos não farão com que ela se quebre Aperto os olhos e deixo-me congelar descer até as profundezas feito chumbo Nenhum acontecimento cósmico Nenhum cometa cruzou a atmosfera Nenhuma estrela se apagou ou acendeu a noite Sou pedra sonhando  transmutar-se em água Evaporar