quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Papo furado

Saiu andando sem saber aonde e como pararia. Queria correr, gritar, dilacerar-se.
Para quê cordialidades e educação sob medida?
"Como você está? E o trabalho? Por onde você anda? O que está fazendo?"
Terrivelmente e aterradoramente ainda viva. Viva?
Ainda complacente, com esses olhos absurdos e essa boca que ri.
A mesma boca que responde às perguntas mais superficiais e cretinas.
O mesmo raciocínio que busca explicações para oferecer a quem quer que considere um absurdo ou um desperdício ela não estar “vivendo uma vida de sucesso”.
E daí que não conseguia dormir? Queria perder a consciência.
Estar desprovida de qualquer senso de identidade, de coerência, traços de sanidade.
Era maldade e confusão a realidade.
E daí que andar pelas estradas da vida dói feito ferro em brasa queimando-lhe as carnes?
Cansou-se de explicar. De sorrir. Ser cordial.
Andará numa solidão estranha. Despirá o que ainda há, sua vestes mundanas e celestes, seu semblante pacífico e toda construção de como deve ser, serenidade.
Cansou de rasga-se. De tomar remédios e venenos, de se jogar da ponte, de cortar a garganta.
De se esquecer. De parecer.
Seguir o relógio e o ritual.
Ela morreu. Ela sabe, sente. Morreu naquela madrugada.
De alguma forma, no entre lugar, aqui e lá.
Definições?
Não irá se desculpar. A casa foi consumida pelo fogo. O templo ruiu e tudo ficou para trás.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

INversão

De quem é a história?
A história é sobre aqueles que se amou?
Dela ou dele?
Contos sobre o abandono e a indiferença?
De como se aprendeu a compreender o que não é dito?
A conviver com a brutalidade, o horror...
Da guerra travada no interior de si?
Na realidade crua e desumana se desenhando a cada novo dia do lado de fora?
Como traçar uma rotina, como acordar todas as manhãs...
Preciso é dormir e acordar, seja a hora que for.
Descobriria que o importante é fazer, e não o momento?
Contudo, há momentos em que determinada atividade toma
formas e significados especiais?
Pediria todas as correspondências solitárias para compor ou recompor a história?
Os emails que só iam. Nunca viam. Via de mão única?
Não seria uma história sobre ele, ou como ela descobriu a compreendê-lo, ainda
que ele não dissesse palavra ou fosse o mais distante e agisse como se desejasse
a ruptura total e o absoluto esquecimento e apagamento dele na vida dela, principalmente.
Estava engasgada com as lágrimas e com as palavras. Engasgada com as pessoas.
Aprenderia, enfim, a viver com a sua singularidade, respeitando suas tormentas,
seu ser indecifrável, suas reticências... Seus sabores múltiplos e aquela solidão? 
A história era e é sobre como existir... Agora, de novo e de novo, amanhã e depois já é pensar demais.



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Asas no abismo


Esmurrou o peito e não sentiu nada. Nem dor, nem vertigem, vontade de tossir, uma única sensação. Estaria oca? Percebeu que não adiantaria tentar cortar a garganta vezes seguidas, tentar mortes amenas quando a dor era brutal, a realidade selvagem em sua vilania.
Mesmo querendo amenizar o peso dado ao próprio fim para a mãe, a irmã, a amiga...
Quem ou o que amenizaria aquele seu vazio desumano?
Havia um buraco. Buracos negros em seu universo engolindo galáxias com sua força de atração.
Não gostava de despertadores nem de ter que ir a compromissos indesejáveis, metódicos, sem viço, obrigatórios.
Uma vida à venda. Enquanto a vida se desgastava, desgostosa.
Já estava morta por dentro?
Os botões... Os botões das roupas soltaram?
O de liga e desliga quebrou na posição desligado em sua história?
Ela esperou uma palavra. A palavra que não veio. Não virá.
Sentia que, por vezes, quando abria os seus sentidos para alguém,
disponibilizava o seu coração, seu corpo, sua atenção era sempre
um caminho que se tornava de mão única, uma insistência sutil e melancólica, uma busca inútil.
Uma prostituta esquecida e rejeitada, totalmente sem valor nas esquinas da vida.
(...)
Magoada? Profundamente ferida? Transpassada ao meio pela lança da indiferença?
Paradoxos.
E ondas de vida e morte, dor e inércia se misturavam, quando não a afogavam naquele mar
de silêncios cheios de angústia.
Poderia viver no entre lugar? Estar aqui, lá e acolá ao mesmo tempo?
Chamou de amigo alguém que fora por muito tempo uma das piores pessoas para ela.
Amou quem queria distância. Como lidar com uma distância que só se realiza no plano físico?
Todos os demônios dentro dela, lembranças, sensações, expectativas, sabores sentidos e imaginados.
O que faria, então? Inventar uma vida? Reinventar sua existência? Como é que se fazia?
Vagava pelas ruas olhando o tempo, às vezes, parava o olhar em alguém.
Já não conseguia ouvir os sons vindos do mundo fora dela.
Precisava de música para esquecer a dor, a dor da dor e o incômodo lancinante do vazio.
Queria se sentir amada, desejada, plena e infinita como o oceano com toda sua força de água, expandindo-se como somente algo inimaginável poderia.
Tanto para dizer, mas estava muda, taciturna, irremediavelmente sem as palavras adequadas.
A impressão de que tudo dito, ainda que com o maior cuidado, causava destruição, desentendimentos, rompimentos para o eternamente.
Estava morta-viva ou carregava em si o potencial da vida e o da morte, num só tempo? As duas experiências coexistindo, sendo uma na outra, não podendo realizar-se sozinhas. Não que fosse a única, todavia, ter a consciência a acordou para um alívio e um mistério que lhe proporcionou certo interesse, onde acreditara já não haver nada.
Cortou seu cabelo como nunca, e se sentia bem. Não era prazer, era a noção de que tudo o que faria era para ela mesma e não teria vergonha ou qualquer sentimento de menosprezo por si, pela mulher que era devido as suas escolhas. Seu corpo, suas cicatrizes, suas lágrimas, sua verdade ou sua inexatidão, sua intensidade e paixão, sua loucura e sua quietude.
Suas marcas.
A reinvenção? Apenas existia e abria seu coração. Não para as pessoas. Para o desconhecido.



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sonho de uma pedra

Estendo a mão e quase sinto meus dedos tocarem o face esquecida então a lembrança se desfaz como fumaça... Num efeito do sonho sou sugada e colocada em outra realidade Não consigo acompanhar os acontecimentos Olho o cenário dos bastidores procurando reconhecer o que é encenado Todas as ações se passam a nenhuma delas eu me conecto Quero sair Sair de mim Não há portas somente corredores Vago por eles... Mão nos cabelos corpo encolhido grito silencioso olhos apertados braço enxugando as lágrimas tenta acordar a boca Como posso tirar esse desespero que pulsa no peito Nada nem ninguém Densidade Mergulhei sem seguranças para voltar à superfície Quando cheguei estava congelada Em vão toco a grossa camada de gelo Chutes e socos não farão com que ela se quebre Aperto os olhos e deixo-me congelar descer até as profundezas feito chumbo Nenhum acontecimento cósmico Nenhum cometa cruzou a atmosfera Nenhuma estrela se apagou ou acendeu a noite Sou pedra sonhando  transmutar-se em água Evaporar


terça-feira, 6 de junho de 2017

Fogo morno


Do lado de dentro, sigo pelos caminhos encurralados da memória.
Enquanto passeio pelas ruas do mundo, que estranham o tempo que não estão acostumadas a oferecer, aqui, do lado de fora.
Nuvens densas pintam as casas, as árvores e as gentes de um cinza silencioso.
Sopra o vento frio do leste. Fecho os olhos e mergulho em mil pensamentos.
No meio de tantos, reconheço o teu sorriso, e junto com ele a minha vontade de te ver de perto. Mundo tátil, aroma, cores e temperatura.
Mesmo evitando adentrar o espaço leviano das comparações, penso nas diferenças em nossas vidas. Nos entre meios, vieses e nos detalhes das histórias distintas que teimaram em se cruzar, ainda que por um breve momento.
Jamais poderei competir com a moça dos cabelos esvoaçantes que te oferece um sorriso todas as vezes em que vocês se encontram pelos corredores do teu lugar preestabelecido do saber.
Nem com a moça loira de andar atraente que esbarrou nos teus olhos outro dia.
Tampouco com aquela do sorriso despojado, que arruma a cabeleira num coque e morde a ponta da caneta de desenho... Todas elas, mulheres com seus universos imensos e abertos ao alcance da tua presença.
Eu sei, é injusto usar de comparações, elas trazem em si qualquer coisa de desigualdade, de desperdício e ilogicidade. Quando cada ser humano é um mundo, características distintas, ofertando e partilhando individualidades únicas.
Entre devaneios escuto a voz dela a me dizer: Você sabe que toda essa história é uma ilusão, não é? Você já não está cansada dessas repetições? Ele não se interessa tanto assim, tem o mundo dele já solidificado, apesar das suas falas tão bem elaboradas que convidam e seduzem para uma realidade cheia de liberdade e possibilidades. Você sabe...
Interrompo seu discurso com um leve aceno da mão direita, que treme no ar, mesmo depois do gesto.
"Não precisa de sermões, nem de julgamentos... Eu sei o que me cabe, eu sei de mim."
Fico por um instante olhando a chuva fina se precipitar varanda a dentro. Busco olhar fundo para mim e olho para ela, com sua expressão que é um misto de pesar, severidade e preocupação.
"Quando não se tem nada, qualquer coisa serve de estímulo. Mas esta qualquer coisa é aquela que desperta a melhor parte de você. Então, por alguns momentos você apenas se deleita, não com a esperança, com a ilusão. E o que se busca não é realizar um antigo sonho, já morto com toda substância do tempo que se foi. É acender a fogueira da vida novamente com esta fagulha."


domingo, 28 de maio de 2017

Desde aquele dia na ponte ela não pôde ser a mesma.
Não estava mais. Não era. Sentia que já havia partido.
Entretanto, uma parte sua continuava aqui, um fantasma a doer,
estava mais do outro lado do que do lado de cá.
Como numa experiência de alquimia mal sucedida.
E viver era o terror. Delírios na noite. Contorcia-se, irremediável.
Desfazia-se, sufocada.



domingo, 21 de maio de 2017

No centro da vida

Parada no centro do dia, olhava ao redor e não fazia parte daquela realidade,
daquelas vidas que anteriormente se encaixavam como quebra cabeça, ilusão do tempo.
Enlouqueceu e nem se deu conta.
Não reparou que não era linear, em espiral funcionavam os seus pés.
Buraco no meio do peito. Nem morrer adiantava.
Era a mais profunda e irremediável agonia. Era o não conseguir ser. Vontades de acabar.
Não entendia muito de matemática, mas aquela conta estava errada, operação de sinais desleal
tanto mais e para ela só menos, só negativos.
De onde mais iria embora agora? O que mais lhe atormentava era a lembrança da escravidão,
era a dor sem remédio do deixar-se escravizar.
Quebraram suas asas. Pura vaidade. Tudo vaidade.
Rodopia no salão da memória, com seu vestido em fiapos, alma rasgada,
boca balbucia feridas, olho que grita.
E agora vida? Para onde vai? Ela que era feita de estrela, sorriso de cosquinha.
Anda agora zumbizando, dá até pena de olhar aqueles olhos assim.
Experimentei dia desses sua lágrima, puro amargor, até o gosto fazia doer.
Seu gemido era uma canção de solidão a sofrer na noite, no dia, no sempre.
Eu pensei que um amor poderia trazer ela de volta, um amor bem grande, daqueles
de coração bem vermelho, de muita sede e um tanto grande de sonho.
Eu pensei e pedi a deusa do amor se ela podia ceder um pedaço do encanto dela
e do pedaço cedido nasceria o ele para ela. Nasceriam um para o outro.
A deusa sorriu o seu sorriso de sedução e disse que tinha um presente maior.
Que horas? Ela respondeu "Agora". (...) Nunca soube sobre o tempo ou a dinâmica dos deuses.
Eu queria dar um par de asas novas para ela. Quem sabe se ela voar novamente ela se recupera...
Rodopiando no centro da vida, ela, borrada e distante... ela que era saborosa, agora só amargor.
Vou espremer o coração dela, feito laranja madura, para sair "o de ruim".
Vem sair da tua escuridão, foram dias demais. Imerecidos.
Rodopiando ela vem.