quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O outro em mim

Estamos sempre procurando motivos para identificação com o outro.
Inconsciente ou conscientemente.
Aquela música, o mesmo signo, experiências que possam dizer que
você e aquele alguém querido fazem parte de um mundo em comum.
Comungando olhares e sensações, potencialmente
criadores de uma ligação para além da conjunção dos gostos,
ligação de almas, explicações cósmicas.
Você só deseja que aquela outra pessoa, o ser admirado,
possa fazer parte da sua vida, seus dias e compartilhar às vivências dela.
Não é sobre o lugar que você ocupa, mas se é importante.
Se faz alguma diferença você estar ou não estar.
Se você toca ou não a outra pessoa.
Se ela é afetada tanto quanto você é e tem sido por tê-la em seus dias.
Agora eu entendo quando se ama alguém por lembrar um outro amor,
assim como a um filho, por ter os olhos da mãe que já partiu.
Tudo bem gostar do sorriso dela por lembrar o sorriso do irmão,
centro da paixão já esvaída e rasgada aos pedaços dentro de alguma parte de si.
Você procurou apagar memórias, auto sabotagem, se matou no processo.
Se queimou por dentro. As cinzas transformaram-se em borboletas
multicoloridas, esvoaçando em volta do teu corpo, para depois partirem
num bailado envolvente.
Algumas ainda voltam, como a visitar o jardim de onde nasceram.
Somos recortes de outras pessoas ou lembranças que nos confortam?
De mim para você, eu escrevo e vou dizendo o quanto vejo
do outro e o quanto aprendo sobre a sua singularidade.
Somos partes para ser todo.
Não há sofrimento em ter uma coisa daquele outro que se amou,
há paz em todas as memórias e porque te conheço e me deixo ser
transpassada pela sua identidade não forçada,
é que a sua marca fica impressa em mim.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A pedra no peito

Foi errado.
Disse. Prometeu. Se enrolou nas palavras e nas ações.
Se perdeu nas atitudes, por causa dos fantasmas de antigamente.
Monólogos por email nunca mais.
Mensagens sem respostas, suspiro no escuro.
Conversa importante só olho no olho. Você já deveria ter aprendido
Esqueça as receitas, Joana.
Esqueça os conselhos, esqueça de esquecer quando dói.
Não se abafa dor, não dá para guardar ou tentar fingir uma coisa assim.
Foi errado e você procura consertar.
Deixe quebrado. Aconteceu.
Você já anda tão aos pedaços procurando
colar relações rompidas, reanimar corações adormecidos,
acordar o que já morreu.
Você se julga, se condena, se cobra, se maltrata.
Jogue fora tudo desde antes até agora.
Largue as cordas.
Esfregue os pés e caminha, do teu jeito.
Foram vozes demais.
Espera.
Não por alguém ou por algo que venha de fora.
Espera o teu tempo, o tempo das situações amadurecerem dentro de você.
Àquele livro, o filme, o significado do sorriso.
Interpreta e desperta.
Se olha no espelho, o passado não precisa pesar assim.
Até eu devo pedir desculpas, porque não se trata de erros ou acertos,
mas de aprendizado e limites.
Se conhece, se desprende e vai.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

en-volta cósmica

Diga em voz alta. Escreva. Cole nos postes das cidades. Piche nos muros...
A indignação, aquela tristeza.
A dor engoliu a vida. Silenciou o canto. Anoiteceu o olhar. Tapou os ouvidos.
Andar sem rumo pelas ruas não vai diminuir a falta de ar, de respeito, o desânimo.
Não vai dar o consolo que o corpo e a mente precisam.
Nunca mais.
Não adianta mais rasgar a pele para marcar na carne palavras e juramentos vãos.
Verter o sangue como ritual de partida. Como morte simbólica.
Se mutila aos poucos para não acabar de uma vez.
Como é possível sorrir do jeito que ela ri e sentir tanta dor ao mesmo tempo?
Como ela pode ser tão colorida e tão obscura?
Ser tão suave e iluminada e tão intensamente destruidora de si?
Por fora ela brilha, por dentro ela está aos cacos.
Como é possível? Como?



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Escreve com as mãos, a memória, com o sangue, todas as emoções na ponta dos dedos, derramando pelo papel, teclado, água molhando o SOS escrito na areia.
Teu nome passeia pela minha boca como dedos imaginários, acariciando a pele morna.
Meu corpo anunciando a morte iminente. Sede. Sede do teu mundo inteiro.
Teus olhos estão sempre diante de mim. Talvez..., sim, talvez eu tenha te inventado.
Tua presença irremediavelmente inalcançável.
Uma morte separou as nossas vidas.
Escrever o que nunca senti, nunca vivi. Reescrever o que vivo, experimento.
Ir de encontro com a realidade que vejo, olhos mareados e míopes, o avesso no espelho.
Contracultura, contra vida-máquina?
A brutalidade do mundo agora, das guerras dos homens, paralisa
minhas ações por visões atormentadas.
Como serei resistência? Como?
Enquanto penso em não enlouquecer, em amar, pesquisar
ter um emprego diferente, milhões morrem das maneiras
mais diversas de tortura e injustiça.
Me perdoe se eu não continuar acreditando.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Meio do caminho

Estou em pânico.
Estou desesperadamente angustiada.
Mantenho-me de pé, diante do tempo,
sentindo todas as memórias dialogando fervorosamente
com as lembranças que eu tento silenciar.
Todas as vidas, todas as pessoas,
tudo que não foi dito, o que deixou-se de lado.
Todas as ilusões vieram bater à porta,
chamando pela loucura.
Aonde ela está?
Já está aqui? Dentro de mim, caminhando comigo?
A obrigação da sanidade, do controle, da disciplina me sufocam.
Esqueço meu nome, a data em que nasci,
a cor de meus cabelos, como pronunciar uma palavra.
Estou terrivelmente assombrada

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Tabu

Morte.
A morte anunciada
A morte premeditada
A morte subjacente
A morte proclamada
A morte tabu
A morte é o fim.
Em todo fim existe um recomeço?
Recomeço na morte
A morte oportunizando um recomeço
Matar o momento, a lembrança daquele sorriso,
a mensagem enviada e não respondida,
o amor solitário no meio da rua,
a esperança morta de sede.
Açúcar para você que tem câncer.
Açúcar refinado para o diabético.
Doce é a morte, o morrer, o esquecimento total.
Teu olhar na memória.
Como rito, a morte foi preciso, para a reconstrução
de uma outra história, sem que existisse as marcas
da tua existência.
A morte em mim, em ti, nas palavras, recordações,
imagens, pensamento, emoções, publicações.
A violência na morte.
O silêncio na morte.
A incompreensão da morte que grita
A dor da morte não resolvida.
Meu passo, minhas roupas, minha língua...
As marcas da morte, o sabor da morte.
Morrer afinal. Não ser.
Egunguns dançando com suas roupas coloridas e exuberantes
no terreiro onde a poeira e o encanto
envolvem e enlaçam todas as almas, todos os olhos,
enfeitiçando o caminho onde Iku espera acenando.
A morte. Morte. Morte...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Matéria condensada

O rito, o mito, importa para quem?
O que você quer escrevendo, dizendo sentimentos?
Você quer mexer com o coração dela?
As escolhas, as vontades, os caminhos?
Você quer o olhar dela de volta?
Você quer o que você sentia quando estava com ela novamente?
É vaidade? Reconhecimento? Sandice? Insegurança? Bobagem...
Você procura se resolver entre milhares de histórias retorcidas.
Não sabe para onde está indo, o que realmente quer.
Em transição você flutua
No líquido viscoso e confortável da falsa estabilidade emocional
financeira, equacional, compulsória, irracional.
Você tem medo de olhar para dentro si e ver as suas verdades?
Você se mistura, se confunde, e as vozes de todas as vidas
gritam dentro do seu universo se comprimindo, compactando,
partículas cada vez mais próximas, mais fortes,
até a explosão.
Você quer, antes de tudo, renascer.
Não está preciso no calendário, mas sabe que vai acontecer.