segunda-feira, 2 de maio de 2011

âNgUlo

Se beijaram como quem ri, sorriam como quem corre, correram como quem procura fugir
da realidade emendada. 
Um em frente ao outro, ela começou a se despir. Para ele era puro desejo. Para ela ritual.
Cada peça, cada gesto.
E ele beijava seu corpo nu.
Olha para mim. Ela sussurrou. E ele respondeu que claro que a beijaria inteira, a reconheceria toda.
Mas ela queria que ele olhasse para a sua nudez, não somente a do seu corpo, mas a nudez que tentava exprimir pelo olhar que a meia luz resistia em transparecer. A nudez da sua dor, ela, mulher entrecortada pela escravidão
de um dia, na sua fragilidade, mostrava que para ser amada fisicamente, precisava ser contemplada por outros olhares e dimensões.
Ele beijava seu corpo, o lóbulo do seu seio, o seu sexo.
Ela queria que os corpos se fundissem, de modo a consolar a dor daquela ferida que ficara das lembranças passadas, ela queria gozar para talvez conseguir fluir novamente.
Ele perdia-se em sabores e retornos, a queria para si, sua companheira, amante, metade de si que doía e faltava.
Ela explodiu num gemido abafado pela noite. Olhava as estrelas enquanto deslizava para o abraço quente,
para a boca que buscava a sua, reciprocidade e equilíbrio dos sentidos, da vontade.
Ela lavantou de repente buscando as roupas. E suas lágrimas lavavam os corpos separados pela violência
das paredes calhadas e do frio do quarto sem paredes.
Ele no abandono da presença íntima dela, apertava-a num abraço, procurando adivinhar os seus motivos.
Ela sentou sem forças na escada encascalhada, abraçou o amor que um dia fora feito para ela e lhe segredou imensidões sem tempo ainda para serem remediadas.
E tudo era a nudez dela, conflituosa, violentada pela vida e pelas mudanças acontecidas no seu universo
que independiam, independeram da sua vontade, sua permissão, licença para seu intelecto.
Era a nudez, a expansão. Era ela. Era tudo.

Nenhum comentário: