quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um segundo

Quando ela tomava vinho e começava a ouvir aquelas músicas atribuídas a sua solidão, alguma coisa
de grande estava para acontecer.
Descalça pela casa, ela roda a taça, olha o líquido vermelho encarnado pintando desejos.
Voltou a sorrir daquele sorriso que me causa frio no estômago... Porque eu não sei o que esperar,
será que ela vai ser serena como quer ou vai enlouquecer de vez?
Não pronunciou palavra sobre as greves dos/as  estudantes e professores/as da Universidades Públicas, não
se indignou com o fato de ouvir homens e mulheres deixando recados apaixonados sobre A marcha das vadias, designando as feministas de mal comidas, mal amadas, de lésbicas- como se sendo lésbica a  mulher deixasse de ser mulher e de ter e querer direitos e respeito, e como se uma lésbica não mais tivesse prazer sexual, só porque não faz sexo com um homem-, e o protesto de desejo de popularidade.
Não se chateou com a falta de educação, a pouca delicadeza, a mediocridade com que trataram outro dia uma determinada situação...
Ela tinha aquele brilho esquisito no olhar... e eu tive medo.
Tem cartazes pela descriminalização do aborto na porta do quarto, tem o coração fulmegando... e cadê os seus instrumentos de luta, seus poemas, sua letra...
Eu perguntei e ela sorriu aquele sorriso alucinado.
Ela nem liga mais para aquela paixão que era a de todos os tempos.
Abriu mão daquilo que a motivou a abrir mão de si mesma.
Deixou de usar salto. Queria se desfazer de todas as roupas, seus livros, toda ela, até bicicleta.
Ficaria apenas com o violão e o computador.
Até da sua cama king size que voltava a ser macia, em seu quarto provisório de tormentos passageiros.
Ela roda a taça, cantarola junto com a música que toca no som. Seus pés pequenos se movimentam devagar no chão frio da tarde...
e o movimento do corpo dela parece escrever coisas que ainda não consigo ler.
Ela sorriu. E eu tive medo...

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