domingo, 12 de janeiro de 2014

Chuva

"Ela se distraiu olhando a chuva. Pensamento que não queria calar. Fechou o livro. Que tal um café? Talvez lhe fizesse companhia na tarefa de permitir que aqueles pensamentos seguissem o rumo que quisessem, falassem mais alto e construíssem uma história para se ler diante da vida que corria, como as gotas de chuva pela janela de vidro.
Ele voltara novamente para os seus dias. Não queria questionar os motivos. Verdade mesmo nunca havia saído, apenas entrado numa rua para se deparar com ela numa próxima esquina qualquer.
Uma vez lera um conto em que uma mulher, depois de muito tempo sozinha, num bar, volta a reencontrar um romance antigo. Ela estava imersa em seus sonhos quando foi despertada pela voz inconfundível. Vestido verde água, vinho tinto, e aqueles olhos e sorriso ali, diante dela outra vez, de repente, como um vendaval, fazendo tudo acontecer. Depois de tantos amores, ele ali, de volta.
Enquanto esperava a cafeteira trabalhar, ela olhava para os lugares do chão da cozinha onde uma luz morna de entardecer iluminava e pensava na primeira vez em que o vira. Cabelos compridos, molhados, jaqueta de couro, capacete na mão e o sorriso mais cheio de estrelas que já vira em toda sua existência. Começou a desejá-lo naquele exato momento.
Pequenas observações, detalhes desenhados na mente. Um jeito de franzir a testa, arquear as sobrancelhas, fazer-lhe gargalhar, enquanto lhe pedia, mimoso, para que ficasse um pouco mais, dias a mais, ao lado dele.
Distâncias.
Sentou no sofá e ficou a olhar novamente a chuva. Tinha a sensação de que não havia esperado o suficiente, em todos os amores, todos que vivera, em tempos de crise onde ela se revelara mais apaixonada, os amores, mais confusos. Então ela se afastava e punha um fim sozinha, onde dois precisariam pontuar. Não esperava crescimentos, o tempo, um emprego novo, o nascimento de um filho, a viagem para esclarecer e estar em paz consigo mesmo... E por não esperar a finalização do amor antigo, um novo sempre surgia. Amontoava amores e a alma, em sobressalto, não a permitia dormir, nem rir, nem nada.
Decidir.
Ela havia errado? Deveria esperar o tempo dele? De tantos outros que quisera amar, mas não estavam à sua disposição no tempo dela? E ela? Aflita, dentro de si mesma, era ansiosa demais, cega demais, para ver possibilidades? Quem sabe...
Relembrava o conto. Um dia talvez, em algum lugar o reencontraria, vestiria um vestido florido, cabelos soltos, vinho branco ou mesmo cachaça. Para esquentar a garganta e refrescar a cabeça. Um dia, quem poderia prever... Aqueles cabelos, aquele sorriso...
Agora, era o livro, a chuva, o amor de agora, os problemas de hoje e o mundo dela que se concretizará amanhã."

 

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