domingo, 5 de janeiro de 2014

Sol em escorpião




"Eu não sei, Luiza, mas acho que ela não anda bem, sabe? Ela se perde olhando o tempo. Eu não pergunto nada, porque uma vez ela me olhou tão fundo que eu quis chorar, parecia que ela dizia o que eu, mentalmente, perguntava, questionava por não entender como aquele riso frouxo e brilhante se transformou naquela boca trêmula, cheia de suspiros guardados que, de quando em vez desabam pelo olhar.
Sabe, Luiza, eu não quero mais perguntar, eu só quero que ela volte a viver, a ser quem costumava ser. Ou ainda ser outra, mas que não seja mais esta, aquela ali, aquela esvaziada dentro dela."




" Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida."

Caio Fernando Abreu, Carta ao Zézim.






Nenhum comentário: