quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Yemanjá




"Estava delirando? Ou era efeito dos remédios que havia tomado para esquecer um pouco da realidade desgostada?
Era ele que ela via, sentado ao pé da sua cama.
Uma luz clarinha entrava sorrateira por entre as cortinas do tecido florido...
Ela abriu os olhos lentamente, estava envolta numa aura de sonho. Então se fosse sonho mesmo, ao menos aproveitaria a ocasião única do encontro. O carinho da saudade.
_ Oi...
_ Oi!
_ Você está bonito! E os nossos cabelos estão quase do mesmo tamanho.
_ É sim! E ele sorriu aquele seu sorriso cheio de estrelas, e com o dedo indicador passeava suavemente pelo rosto inchado dela. Inchado daquele choro calado dos ontens cegos.
_ Sabe, eu sinto saudade. Não sei exatamente explicar, mas sinto que se tivesse várias existências, eu separaria uma somente para te observar. Te ver crescer, aprender a viver, desaprender sentimentos, viver romances, perder aquele sonho alimentado com sangue e trabalho, e depois reconquistar. Ter um filho e amá-lo como se fosse você, renascendo novamente. Eu queria te abraçar. Abraçar em cada momento. Quase sempre me sinto ainda abraçada a você. Só abraçada, vendo seu sorriso nascer...
Ela tossiu pela sequidão da garganta, e pela falta de água que parecia haver no corpo, nem saliva, nem lágrimas. Ele sorriu como se estivesse amanhecendo.
_ Descansa, minha Yemanjá. Tenho navegado por muitas terras, sertões, visto muita seca, de direitos e dignidade. Mas a vida tem me dado presentes a cada minuto que se renova, pois a minha semente está plantada, brotando no mundo.


Ela não quis adormecer, mas as pálpebras lhe pesavam mais do que tudo no mundo. Queria ouvir aquela voz por horas ininterruptas, ver aquele sorriso cheio de estrelas...
(...)
O mar e o sertão guardam muitos mistérios e segredos que a razão azucrina e amiúde se aquieta, sem compreender. Subconsciente do ser, consciência do não sido.
Era o mar. Era a saudade calada."


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