domingo, 2 de novembro de 2014

Salto no ar

Ela disse, não ia deixar escrito.
Aprontou a mochila. De nada mais precisava.
Colocou o capacete, montou a bicicleta e desceu a ladeira, sem freios.
Não via carros, sinais, pessoas, ninguém a sua frente.
E os livros que estão esperando para serem escritos?
E o moço do sorriso bonito, os cupcakes da loja da esquina?
E a livraria nova, com cheiro de café e milhões de títulos?
Os planos da casa na praia com a mãe, a cirurgia para ficar boa,
o vestido branco que usaria no encontro da semana que viria?
E os sonhos que foram plantados todos esperando para brotar?
A boca seca, a cabeça leve, a garganta queimando, olhos lacrimejando.
Droga, daquele jeito não conseguiria enxergar!
Mas, para quê chorar? Ela só queria gritar, tinha tanta coisa dentro de si,
mundos, cores, formas, desejos, acontecimentos, tantos sons...
Ela pedalava sem parar, não queria perder a coragem, não queria diminuir
a velocidade, não deixaria a fraqueza tomar conta do seu corpo.
Agora não. Desta vez, não. Só desta vez.
Desafiaria a si mesma. A natureza dentro dela, os seus potenciais que por tanto tempo permaneceram silenciosos.
Era o perigo. Experimentaria estar por um fio, além das expectativas.
Entrou pela mata adentro, galhos de plantas e arbustos arranhavam seus braços e rosto, ela seguia com toda velocidade.
Chegou perto da beira do abismo. A cachoeira da lua.
Assim era chamada por seu formato de lua crescente, uma grande piscina de água cristalina, três quedas jorravam da rocha brilhante. 15 metros de altura, vários de profundidade.
Largou a bicicleta no chão. Tirou a mochila das costas.
O sol da manhã esquentava-ĺhe a face suada.
Tirou os tênis, chegou até a beirada, respirou fundo, olhou todo aquele mundo...
Andou de costas, 12 passos largos. Olhou para o céu, respirou fundo, tomou impulso e pulou.



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