sexta-feira, 28 de abril de 2017

Arame farpado

O que seria pior do que a indiferença amarga que foi obrigada a experimentar?
Mexeu onde não deveria? Insistiu naquilo em que sabia que não teria futuro, mal
houve presente, apenas momentos para o além tempo.
Não se tratava de humilhação gostar dele e demonstrar em cada
e-mail enviado entre engasgos e relutância da consciência,
que sabia... Nunca deveria ter voltado a estar com ele.
Nunca deveria ter alimentado nada por ele. Nem antes, nem nunca.
Alguém marcado por estereótipos, com limitações acerca do que é ou pode ser
uma pessoa, como devem ser as mulheres ou a mulher que deve amar.
Ela que sempre alimentava a liberdade e o respeito, foi as últimas consequências do
desrespeito, ferindo e amaldiçoando a si mesma por uma ilusão.
A insistência do querer ouvir dele, ouvir aquela antiga voz formar as palavras
que ele precisava para soltar as correntes.
Correntes estas que ela mesma transpassou pelo corpo,
ferindo-a feito arame farpado, rasgando suas carnes toda vez em que se debatia
na obrigação de esquecê-lo e liberar-se.
Aonde estava o elo fraco agora? Como romperia com aquilo que criara?
Se debateu até pedaços seus espalharem-se por toda parte.
As correntes haviam caído.
Seus cabelos grudados ao rosto, misturado com sangue, lágrimas e suor...
Ela só conseguia sentir raiva e humilhação.
Se investigasse um pouco mais a fundo saberia que era só tristeza
por mais uma vez ter se colocado numa situação insustentável,
num lugar onde não lhe cabia.
Não tinha forças para continuar. Não ainda, não agora.
Estava livre. Mortalmente ferida, mas livre.
Já morrera tantas vezes que mais uma já não fazia diferença.
Mataria também quem ele era?
Sabia apenas de uma coisa: aquele ser que um dia fora tanto amado, já não existia mais.
Quem era? Ela não sabia. Nada do que foi importava.



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