segunda-feira, 15 de maio de 2017

Esboço



Eu sei.
Estou procurando abrigo e apoio nos lugares errados.
Tenho me sentido extremamente só. De uma solidão estranha.
É o velho desespero no meio da multidão? O grito que ninguém ouve?
Não. Essa solidão é marcada. Severa.
Me exponho de tal forma que sinto que a qualquer momento me tornarei invisível.
Não dá para bradar e rasgar-se para mostrar as tantas cicatrizes e feridas abertas por dentro.
Mais uma vez, das vezes que não contarei mais, procurei colocar em prática a minha escolha.
A vida dói tanto que me pergunto quanto uma dor pode se expandir?
O vasinho com cristais, a rosa vermelha, e a vela no chão do banheiro. Eu tinha um estilete novo, tinha! Havia comprado naquela semana. Mas foi com o velho que tentei cortar a garganta, mais especificamente a carótida externa. Furei várias vezes, mas a lâmina se negava a rasgar a carne.
O único furo que consegui fazer pensei  e desejei que fosse o suficiente, enfiei a lâmina com toda força, mas ela não rasgava. Não foi o suficiente. Depois de tremer e sangrar um tanto, ver que o corte não era o bastante perfeito para fazer o sangue jorrar, parar de oxigenar o cérebro... Coloquei os dedos para sentir e molhava, com a água do vaso em que a rosa vermelha pendia inerte, para não coagular. Pateticamente escrevi amor na parede com os dedos ensanguentados.
Era amor que eu queria? Ou era a paz, o silêncio total, o esquecimento de tudo, a consciência desobstruída, desprovida de toda razão? Ou ainda discursar sobre o que era importante mas estava decadente? Em desuso?
Não tinha forças para tentar outro corte. Levantei do chão, coloquei cada coisa em seu lugar e deitei na cama e me cobri. Entre tremores e tristeza, liguei para a única pessoa que eu gostaria de pegar na mão, a única que eu sabia que dela viria amor verdadeiro, ou um sentimento sem julgamentos, uma compreensão quase que total, a cumplicidade reconhecida.
Ela, meu vínculo transcendental, minha ligação cósmica, veio e deitou ao meu lado. Depois de muita fraqueza pedi que me limpasse para que ninguém visse aquele fracasso.
Ela trocou a camisola suja por uma outra perfumada. Limpou o corpo manchado com todo cuidado, uma toalha umedecida e a atenção de quem precisa fazer um trabalho minucioso. Ainda lavou -os,  para que ninguém notasse vestígio algum de qualquer acontecimento estranho.
Tomei um calmante. Ela teve que ir.
Acordei às 2 da madrugada. E o pensamento não parava: E agora, como continuar? Continuar o quê? Como seguir acordando  neste quarto, morando nesta casa, vivendo esta vida?
Tomei banho. Coloquei um jeans, uma camiseta, o casaco preto com capuz. Saí escondido. Sabia que se saísse por dentro de casa acordaria alguém e me impediria.  Pulei o muro do quintal de casa que dava para um terreno baldio ao lado. Tirei os sapatos, coloquei dentro do casaco e pulei o muro do terreno que dava acesso à rua.
Corri até onde não pudessem me ver, caso tivessem ouvido algum barulho. Sentei no meio fio. Calcei os sapatos e segui.
O pensamento só me levava a casa dele, daquela antiga paixão maltratada que já tanto me fizera mal. Eu só queria que ele me recebesse, sentar no chão do seu quarto. Respirar. Falar sobre nada ou qualquer coisa e voltar. Voltar para onde?
Cruzei a cidade, cheguei até a porta da casa dele. Liguei. Possivelmente meu número estava bloqueado. Enviei mensagem dizendo que estava à porta.
Sentada no chão, encostada na parede, um carro parou. Um homem bonito com uma alma tão bonita quanto, disse para eu ir para casa. "Era tarde, deveria ir descansar". Eu agradeci. Disse que conhecia as pessoas daquela casa. Agora eu sei que ele sabia mais do que eu.
Então o antigo romance amargurado apareceu. Do lado de dentro. Não abriu o portão, nada fez. Pela grade disse, mergulhado numa atmosfera de nojo, impaciência e desprovido de qualquer sentimento de empatia:
"O que você está fazendo aqui a essa hora? Não, eu não quero conversar. Eu já estou cheio de problemas, não quero mais problema para minha vida. Essa semana minha irmã tentou se matar, minha cabeça está cheia. Quem foi que tava no carro? Liga para vir te buscar. Vou ligar para uma moto. Vai pra cara"
Na minha letargia inapropriada eu dizia que só queria conversar. "Não é a conversa que você está pensando.(...) Tá bom. Tudo bem. Está certo (...) Eu não vou para casa."
"Olha, eu não quero mais saber de nada, não quero mais problema."
E foi entrando em casa e eu seguindo para o nada. Procurando excluir e bloquear todos os números.
Segui o caminho sem rumo com aquela voz ecoando na memória e rebatia: "Eu não sou um problema. Não sou um problema."
Olhava o nada com a fraqueza abraçando forte o meu corpo. "Milagres não existem" Eu repetia.
Para onde eu iria? Não sei mais viver. Eu só quero descansar. Partir. Não ser.
Por favor, me deem um tiro, uma facada. Qualquer coisa.
Meus pés me levavam aonde? Para onde vou?  Não há lugar.
E aquele amigo? Ele só tem 15 anos. Tem a sua vida. E o que eu vou dizer? É muito...
Ligue para o outro amigo. Ligar? Eu só entendia o que era andar. E o outro amigo não seria tão amigo àquela hora.
Quando passei pela metade daquela avenida vazia, com suas histórias tenebrosas de violência eu vi a ponte coberta. Eu já havia pensado em voar de lá.
Eu segui.  Mas voltei.
E fui caminhando. Cruzando a ponte. Olhando para os lados, para baixo, procurando um lugar sólido. Terra entre o rio morto e as poças lamacentas.
Encontrei. Planejei subir ao teto. Era mais fácil adormecer e rolar de lá. Mas eu estava fraca e com pouco equilíbrio. Passei para o outro lado das grades. Caminhei um pouco e sentei. Sentei esperando ficar sonolenta, a queda ia doer menos. E eu não quero mais dor.
Esperei, me concentrando para adormecer. Com aquela maldita pedra da estrela agarrada a mão.
"Eu não sou um problema. Não levo problemas para a vida de ninguém. "
"Milagres não existem "
"Eu só quero descansar"
Quando estava quase conseguindo vozes distante me despertaram de um quase sono. Uma voz de mulher e outra de homem se aproximavam. Era um casal. O homem reconheceu uma pessoa, e chegando perto viu que era uma mulher. Olhou e comentou que se eu caísse dali já era. Me segurou, perguntou o que eu tinha.
Eu já estava em choque e só consegui chorar.
Ele me agarrou por entre os ombros e me puxou.
Me fizeram mil perguntas. Tinham corações muito bonitos. A mulher disse que me levaria para a casa, não ia me deixar ali, "era barril". Ela tinha uma filha, e não queria jamais passar por aquilo. A vida era muito preciosa para eu desperdiçá-la daquele jeito, ninguém nem nada merecia. Ela me levaria para sua casa e lá eu descansaria.
Andei quilômetros com cada um me segurando de um lado. Falavam coisas várias, especulações um para o outro, e se dirigiam para e a  mim com muito cuidado e delicadeza.
Quando chegamos já amanhecia.
E num acesso,  pois eu sabia que se ali ficasse teria uma crise de pânico, liguei para a única amizade, novamente para ela. "Você pode vir me buscar? A mulher falou com ela sobre o endereço. O homem também.
Em menos de meia hora ela estava quase lá.  Nos encontramos no caminho, pois chegar até o endereço descrito era difícil. O casal disse que nada era por acaso, que foi coisa de deus eles terem me encontrado. Tanto para mim quanto e principalmente para eles.
Eu só consegui balbuciar que se tivesse alguma sorte eu a daria toda a eles.
Minha amiga agradeceu aos dois e os abraçou. Depois me abraçou também e me ajudou a entrar no carro.  Fomos para casa dela.
Eu mal ouvia e via.  Estava morta de alguma forma. Ou de muitas.
Sentamos no sofá. Tirei os sapatos. Os pés inteiramente machucados.
Chorei e contei a ela o que havia acontecido entorpecida dentro daquele abraço.
Ela me fez deitar na cama e deitou ao meu lado. Colocou músicas no celular.
Falou de coisas risíveis e descansamos pouco.
Eu levantei logo. Tomei a água que ela havia colocado para mim ao lado da cama.
Ela também levantou. Fez café. Eu tomei primeiro. Ela olhou para mim e perguntou se o que eu tinha dito sobre o amargo romance era verdade. Era.
Ela não duvidava, mas precisava ter alguma certeza.
A voz ainda ecoava que eu era um problema.
Eu, metade morte e metade dor, pensei como era possível?  Não se trata ninguém assim... Junto com quem eu era, ele morreu também.
Ela disse algo que não me lembro. Mas era sobre ele agradecer por ela ter determinadas condutas e comportamentos.
Deitei no sofá enquanto ela se arrumava para viver o dia.
Me ajudou a fazer certas coisas antes de me trazer para casa: Você sabe que pode ficar lá em casa, não é?
E falou coisas de amor e apoio. Principalmente que, vai chegar a hora de partir, e ela será amena, sem tanta dor. Não há mais espaço para doer tanto, doer mais.
Não sei viver esta vida. Nesta casa.  Não sei como vai ser. Como é. Não sei.
E não quero tentar, em vão, morrer novamente. Nunca dá certo.
"Porque não é assim, não é ainda a hora". Acreditar... Verbo passível de inexatidão ou incoerência.
(...)
Depois de sentir o nada, de estar continuando sendo eu sem ser realmente...
Queria começar a fumar cigarros canelados , a fazer coisas que poderiam condizer com essa dor, essa estranheza de agora. Coisas que não pertenciam a quem eu era. Era. Não há como voltar a ser.
Para descansar procuro pensar em coisas suaves, ainda que impossíveis.
Não sei. Talvez ainda precise terminar o livro. Não é grande coisa. Contudo, é minha construção antiga que precisa ser acabada.
Preciso de botas vermelhas de salto. Queria ter forças para sair nos finais de tarde e olhar o mundo. Me ajudaria a escrever. A ver. A fingir que sinto ou desejar sentir, embora e talvez por hora, nada sinta. Talvez me torne cínica, cética, contraditória, sem sentido.
(...)
Um esboço do ser.
Estou procurando abrigo no lugar errado.
Você não pode fazer nada por mim.
Eu não sou um problema.
E milagres... Milagres não existem.





Um comentário:

Kleider Kennedy disse...

Você é uma escritora nata. Procure seus prazeres no que sabes fazer. E no que gosta. Problema? Eis um: o mundo é problemático. É cheio de impressões, ilusões, fachadas, inversão de valores... Pessoas como Nietzsche, um dos mais brilhantes homens que já pisou neste mundo, não se encaixava nele. Passou anos escrevendo e contando nos dedos - literalmente - os poucos que se interessavam em ler o que ele escrevia. Tantos e tantos outros tiveram sua matéria transformada, encerraram seu ciclo de vida sem saber tudo o que se tornariam. Ou melhor, o que já eram, é que o problemático mundo ainda não enxergava. Ainda.
Não precisa ser como Nietzsche, nem ao menos concordar com ele (no meu caso, tenho vontade de assinar embaixo de cada página que leio), seja como você. Seja como for. Sinta e acredite no que já te move. Mas faça algo como ele, absorva esses problemas do mundo, escreva sobre eles, que seja... Termine o livro que mencionou. Deixe suas digitais...
Quando uma estrela morre, ao passar pelo brilhante fenômeno da Super Nova, até o dia em que perde sua combustão e energia, ainda assim, ela continua sendo vista por muito, muito tempo, daqui, deste minúsculo ponto pálido e azul, vagando no universo, chamado Terra, e de tudo o resto da vastidão. Não estreite sua existência, o Universo precisa de você, brilhando no Cosmo...
Mais que isso, da forma como trata as palavras, a poesia precisa de você, a literatura precisa de você, as páginas precisam ser preenchidas com suas palavras...