terça-feira, 6 de junho de 2017

Fogo morno


Do lado de dentro, sigo pelos caminhos encurralados da memória.
Enquanto passeio pelas ruas do mundo, que estranham o tempo que não estão acostumadas a oferecer, aqui, do lado de fora.
Nuvens densas pintam as casas, as árvores e as gentes de um cinza silencioso.
Sopra o vento frio do leste. Fecho os olhos e mergulho em mil pensamentos.
No meio de tantos, reconheço o teu sorriso, e junto com ele a minha vontade de te ver de perto. Mundo tátil, aroma, cores e temperatura.
Mesmo evitando adentrar o espaço leviano das comparações, penso nas diferenças em nossas vidas. Nos entre meios, vieses e nos detalhes das histórias distintas que teimaram em se cruzar, ainda que por um breve momento.
Jamais poderei competir com a moça dos cabelos esvoaçantes que te oferece um sorriso todas as vezes em que vocês se encontram pelos corredores do teu lugar preestabelecido do saber.
Nem com a moça loira de andar atraente que esbarrou nos teus olhos outro dia.
Tampouco com aquela do sorriso despojado, que arruma a cabeleira num coque e morde a ponta da caneta de desenho... Todas elas, mulheres com seus universos imensos e abertos ao alcance da tua presença.
Eu sei, é injusto usar de comparações, elas trazem em si qualquer coisa de desigualdade, de desperdício e ilogicidade. Quando cada ser humano é um mundo, características distintas, ofertando e partilhando individualidades únicas.
Entre devaneios escuto a voz dela a me dizer: Você sabe que toda essa história é uma ilusão, não é? Você já não está cansada dessas repetições? Ele não se interessa tanto assim, tem o mundo dele já solidificado, apesar das suas falas tão bem elaboradas que convidam e seduzem para uma realidade cheia de liberdade e possibilidades. Você sabe...
Interrompo seu discurso com um leve aceno da mão direita, que treme no ar, mesmo depois do gesto.
"Não precisa de sermões, nem de julgamentos... Eu sei o que me cabe, eu sei de mim."
Fico por um instante olhando a chuva fina se precipitar varanda a dentro. Busco olhar fundo para mim e olho para ela, com sua expressão que é um misto de pesar, severidade e preocupação.
"Quando não se tem nada, qualquer coisa serve de estímulo. Mas esta qualquer coisa é aquela que desperta a melhor parte de você. Então, por alguns momentos você apenas se deleita, não com a esperança, com a ilusão. E o que se busca não é realizar um antigo sonho, já morto com toda substância do tempo que se foi. É acender a fogueira da vida novamente com esta fagulha."


Nenhum comentário: