quarta-feira, 5 de julho de 2017

Asas no abismo


Esmurrou o peito e não sentiu nada. Nem dor, nem vertigem, vontade de tossir, uma única sensação. Estaria oca? Percebeu que não adiantaria tentar cortar a garganta vezes seguidas, tentar mortes amenas quando a dor era brutal, a realidade selvagem em sua vilania.
Mesmo querendo amenizar o peso dado ao próprio fim para a mãe, a irmã, a amiga...
Quem ou o que amenizaria aquele seu vazio desumano?
Havia um buraco. Buracos negros em seu universo engolindo galáxias com sua força de atração.
Não gostava de despertadores nem de ter que ir a compromissos indesejáveis, metódicos, sem viço, obrigatórios.
Uma vida à venda. Enquanto a vida se desgastava, desgostosa.
Já estava morta por dentro?
Os botões... Os botões das roupas soltaram?
O de liga e desliga quebrou na posição desligado em sua história?
Ela esperou uma palavra. A palavra que não veio. Não virá.
Sentia que, por vezes, quando abria os seus sentidos para alguém,
disponibilizava o seu coração, seu corpo, sua atenção era sempre
um caminho que se tornava de mão única, uma insistência sutil e melancólica, uma busca inútil.
Uma prostituta esquecida e rejeitada, totalmente sem valor nas esquinas da vida.
(...)
Magoada? Profundamente ferida? Transpassada ao meio pela lança da indiferença?
Paradoxos.
E ondas de vida e morte, dor e inércia se misturavam, quando não a afogavam naquele mar
de silêncios cheios de angústia.
Poderia viver no entre lugar? Estar aqui, lá e acolá ao mesmo tempo?
Chamou de amigo alguém que fora por muito tempo uma das piores pessoas para ela.
Amou quem queria distância. Como lidar com uma distância que só se realiza no plano físico?
Todos os demônios dentro dela, lembranças, sensações, expectativas, sabores sentidos e imaginados.
O que faria, então? Inventar uma vida? Reinventar sua existência? Como é que se fazia?
Vagava pelas ruas olhando o tempo, às vezes, parava o olhar em alguém.
Já não conseguia ouvir os sons vindos do mundo fora dela.
Precisava de música para esquecer a dor, a dor da dor e o incômodo lancinante do vazio.
Queria se sentir amada, desejada, plena e infinita como o oceano com toda sua força de água, expandindo-se como somente algo inimaginável poderia.
Tanto para dizer, mas estava muda, taciturna, irremediavelmente sem as palavras adequadas.
A impressão de que tudo dito, ainda que com o maior cuidado, causava destruição, desentendimentos, rompimentos para o eternamente.
Estava morta-viva ou carregava em si o potencial da vida e o da morte, num só tempo? As duas experiências coexistindo, sendo uma na outra, não podendo realizar-se sozinhas. Não que fosse a única, todavia, ter a consciência a acordou para um alívio e um mistério que lhe proporcionou certo interesse, onde acreditara já não haver nada.
Cortou seu cabelo como nunca, e se sentia bem. Não era prazer, era a noção de que tudo o que faria era para ela mesma e não teria vergonha ou qualquer sentimento de menosprezo por si, pela mulher que era devido as suas escolhas. Seu corpo, suas cicatrizes, suas lágrimas, sua verdade ou sua inexatidão, sua intensidade e paixão, sua loucura e sua quietude.
Suas marcas.
A reinvenção? Apenas existia e abria seu coração. Não para as pessoas. Para o desconhecido.



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